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GAMA 1

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Uma doença infecciosa cuja principal forma de transmissão é sexual necessariamente expõe mais ao perigo aqueles que são sexualmente mais ativos — e torna-se mais fácil encará-la como castigo dirigido àquela atividade (Sontag, 2007: 98).

Leonilson, artista empenhado em questões íntimas, também materializaria no objeto artístico grande parte de seus conflitos, dúvidas e até mesmo a rotina de ter que lidar com esse novo fato. Nesse sentido, a iniciativa de focar nos objetos bordados dos últimos três anos de produção as questões relativas à AIDS situa o artista nos “entre-lugares” que, segundo Homi Bhabha, “fornecem o terreno para a elaboração de estratégias de subjetivação (...) que dão início a novos signos de identidade (...)” (Bhabha, 1998: 20). Bhabha constrói esse pensamento observando as narrativas de grupos dissidentes e afirma que “é nesse sentido que a fronteira se torna o lugar a partir do qual algo começa a se fazer presente” (Bhabha, 1998: 24). Consciente de que faria parte de um grupo “diferente”, Leonilson expressa, muitas vezes com ironia, a percepção de poder ser o transmissor da doença. As obras “Jogos Perigosos” (1989) e “O Perigoso” (1992) narram a rotina e os cuidados com a doença. O artista constata um momento bem marcado, em que ele se percebe como parte de um grupo que se desloca socialmente. Homi Bhabha afirma que as culturas nacionais são cada vez mais produzidas por essas minorias:

67 Revista Gama, Estudos Artísticos. ISSN 2182-8539, e-ISSN 2182-8725. Vol. 1 (1): pp. 66-71.

Nota-se a necessidade do artista de falar de si e de representar seu corpo no presente, que reverbera nos títulos das obras e situa o artista à margem, mostrando um isolamento voluntário. Retoma-se a importância do texto na obra ressignificada pelo artista como imagem, fazendo parte de seu universo gráfico. Nesse sentido destaca-se a obra “El desierto” (Figura 1), que representa alto grau de intimidade. São quatro pedaços de feltro unidos por pespontos de linha preta. O artista divide o trabalho em partes e os únicos dados são sua idade “33”, o título “El desierto” e a frase “o que é verdade para certos rapazes”. Sobre esse trabalho Leonilson diz: “[...] eu me sentia um deserto mesmo. Eu não tinha nada. [...] El Desierto é tão íntimo que só tem a inscrição e 33, a idade que eu tinha na época em que eu fiz.” (Lagnado, 1995: 98). A situação do artista nos anos 1980 e 1990 implicava também conviver com uma nova realidade instaurada por uma doença fatal que punha em jogo questões relacionadas à sexualidade. Susan Sontag, no ensaio “Aids e suas metáforas”, observa:


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