58 Lopes, Almerinda da Silva (2013) “A arte cinética de Maurício Salgueiro: entre a ironia e a denúncia do corpo torturado.” Revista Gama, Estudos Artísticos. ISSN 2182-8539, e-ISSN 2182-8725. Vol. 1 (1): pp. 53-58.
formulador da dúvida: trata-se de gemido de prazer ou de dor? Ao encerrar o ciclo de retroalimentação, excitação e convulsão, permanece no lugar do falo uma poça de borbulhante líquido vermelho, sem força para deslizar pelas paredes da caixa. Assim, se a encenação parece traduzir a idéia de excitação sexual e ejaculação, o vermelho/sangue se exaurindo e o suspiro debilitado da escultura ao final do ato, não deixam de aludir à frustração, às atrocidades físicas, durante as famigeradas sessões de tortura nos chamados “anos de chumbo” (Figura 5). Conclusão
Maurício Salgueiro produziu, na fase mais conturbada da ditadura militar brasileira, objetos cinéticos que não se reduzem à aproximação arte e tecnologia, à exaltação do movimento ou ao aspecto lúdico que a interatividade programática faculta ao fruidor. Essas esculturas polimatéricas, polimorfas, polissêmicas, pulsantes, metaforizam a violência, a tortura, o cinismo, a perversidade do poder, por meio de um evento erótico, expresso pelo confronto paradoxal de prazer e dor, ironia despercebida aos censores. O conceito de “metaironia” de Duchamp, que remete a “uma ironia que destrói sua própria negação e, assim, se torna afirmativa” (Paz, 1977: 11), reafirma o sentido político/crítico das obras e talvez ajude a entender a dificuldade de sua decodificação.
Referências Grénier, Catherine (2005) Le Big Bang moderne. In Grénier, Catherine (2005) Big Bang. Destruction et création dans l´art du XXe siècle. Paris: Centre Georges Pompidou/Musée National d’Art Moderne, pp. 13-20.
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Morais, Frederico (1976) “Luminosas, uivantes, tátil-olfativas, pulsantes: eis as esculturas de Maurício Salgueiro.” O Globo, Rio de Janeiro, 09 set. 1976. Paz, Octavio (1977) Marcel Duchamp ou o castelo da pureza. São Paulo: Perspectiva.