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GAMA 1

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57 Revista Gama, Estudos Artísticos. ISSN 2182-8539, e-ISSN 2182-8725. Vol. 1 (1): pp. 53-58.

empreendem um movimento ascendente e descen­dente, batendo os pés no chão. Embora não saiam do lugar, o som monótono e repetitivo que produzem faz lembrar a cadência de uma marcha, o autoritarismo e o peso torturante das botas dos militares. A veia irônica e a verve experimental de Salgueiro se confirmavam ao produzir outra série de objetos cúbicos, construídos com metal e ou com compensado naval, denominada Hemorragia (década de 1970). Recorrendo a solda ou resina, o artista produz texturas, que lembram cicatrizes ou lanhos na superfície/ pele desses corpos/caixas, no interior das quais há um líquido viscoso vermelho e odorífero e uma bomba hidráulica, que faz pulsar o coração da máquina. Se por sua configuração formal e desempenho cênico estabelecem analogia com obras minimalistas, não se trata de caixas vazias que se limitam à sua configuração visual, pois desses corpos sanguinolentos, fustigados e torturados jorra matéria e emanam sensações, instigando a memória e potencializando a imaginação e a interlocução. O conceito de corpo-máquina foi emprestado do pensamento futurista, que atribuiu à máquina coração e alma, sendo, portanto, capaz de amar e sofrer, em analogia com a condição e os desígnios humanos. Ao toque no interruptor instalado na face superior da caixa, a bomba impulsiona o óleo-sangue para o alto, que vaza por fendas existentes na face superior do prisma e esparrama-se pelas laterais, sugerindo uma hemorragia. Ao cair na calha existente na base da caixa, a substância é bombeada novamente para dentro, para o coração da máquina-escultura, empreendendo, assim, um processo de retroalimentação que remete ao movimento circulatório (sístole e diástole), como observou Morais (1976). O jorrar do líquido é acompanhado do som de um suspiro extenuado, que logo se esvai, vaticinando a decepção. O objeto se desliga, então, automaticamente, assim permanecendo até que alguém decida acionar o interruptor, revitalizando a potência do corpo escultórico que voltará a repetir a mesma cena sanguinolenta, teatral e dramática, numa referência ao eterno recomeçar. Algumas obras da série receberam uma conotação erótica, como em Vazamento I- A Poça (1972) (Figura 4). Ao ser acionada jorra um líquido viscoso vermelho, com odor pútrido. Pouco depois de iniciada essa contração espasmódica, surge, inesperadamente, de dentro do cubo uma viril e avantajada forma cilíndrica, moldada em resina vermelha, remetendo a um falo. A configuração dessa estrutura e o movimento que ela empreende, seguido do jorro do líquido oleoso, são logo associados a uma ereção peniana e ao orgasmo, provocando comentários e reações inusi­tadas dos interlocutores, que raramente se dão conta da ironia. Após exibir-se por segundos, o cilindro fálico se reco­lhe lentamente, até submergir, quando emite um suspiro exaurido ou agonizante,


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