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GAMA 1

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56 Lopes, Almerinda da Silva (2013) “A arte cinética de Maurício Salgueiro: entre a ironia e a denúncia do corpo torturado.”

Figura 4. Maurício Salgueiro, Vazamento I (1972). Fotos: Maria Helena Lindenberg.

Figura 5. Maurício Salgueiro, Vazamento II, 1972 — MAM-SP.

fascinantes misturas óticas. Ao acionar o botão do interruptor, o fruidor atribui vida às esculturas: os semáforos piscam, as lâmpadas acendem e reverberam luz no espaço circundante, que passa a fazer parte da obra, numa época em que essa questão assumia grande importância. A luz torna os materiais translúcidos, diluindo os contornos; os fios elétricos se chocam provocando curto-circuito; o som da buzina ou da sirene dispara, inesperadamente, assustando ou inquietando o interlocutor desavisado. Assim, se os objetos são imbuídos de um caráter aparentemente lúdico, o barulho produzido por eles soa como advertência ou eminência do perigo, remetendo, de alguma maneira, à situação política do país (Figuras 1 e 2). O recrudescimento do regime militar, após a decretação do AI5 (em dezembro de 1968) aumentava o controle e a interferência política na produção cultural: fechamento de exposições, apreensão de obras, perseguição e prisão de artistas. Sem fazer concessões, Salgueiro não iria atenuar o senso crítico ou a potência criativa, mas encontraria meios de evitar o enfrentamento direto com a censura. Formulava, a partir de então, objetos/máquinas cinéticos de grandes dimensões, que embora ironizassem, de maneira mais evidente, a repressão política, passariam incólumes à censura, seja por sua estrutura insólita, seja pelos atributos tecnológicos que pareciam camuflar ou tornar esse sentido imperceptível ou invisível. Após ter sido detido para depor ao sair da Bienal de São Paulo, o escultor formulava a série Ordinário, Marche (1969) (Figura 3), cujos objetos aludem a corpos animalescos, rígidos e acéfalos, constituídos de prismas de bases triangulares em acrílico e pés de ferro. No interior dos sólidos alojam-se roldanas, engrenagens, socorros eletromecânicos, lembrando vísceras, que facultam o movimento das estranhas geringonças. Acionados pelo toque no interruptor


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