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Figura 3. Maurício Salgueiro. Ordinário, Marche, 1969-1992. Acervo e foto do artista.
E se ao proporem a participação do público atribuíam aos objetos um caráter social e atributos lúdicos, tais artifícios escamoteavam o senso crítico presente nas esculturas/máquinas cinéticas do capixaba Maurício Salgueiro, que mesmo produzidas durante a repressão política no Brasil, passariam ilesas à censura. Nascido em Vitória (Espírito Santo), mas radicado no Rio de Janeiro, o escultor, fotógrafo e professor Maurício Salgueiro (1930), logo após se especializar em Londres e Paris (1961-1963), com o prêmio do Salão Nacional, é surpreendido pelo golpe militar, passando a criar inusitados objetos dotados de luz, som, odores, e de peculiar ironia, que se desvela nas ações teatrais trágicas de jorrar líquido/sangue, gritar, suspirar, marchar. Corpos/máquinas enunciadores
Os conhecimentos de mecânica adquiridos na Escola de Engenharia possibilitaram a Salgueiro criar objetos que hibridizam artesania e tecnologia, materiais tradicionais e industriais: ferro, aço, acrílico, madeira, solda, fotografia, com fios elétricos, isoladores, lâmpadas de néon coloridas, buzinas de automóvel, sirenes de ambulância, semáforos, e movimentá-las por artifícios eletromecânicos. Tais esculturas, embora com formulações visuais, conceituais e funcionais diversificadas, deram origem a séries que, reunidas, compõem um extenso e inacabado projeto denominado genericamente pelo artista de Urbis, numa referência à metrópole moderna. As lâmpadas e outros componentes presentes nos objetos lumino-sonoros salgueiranos são fixados a soquetes mecânicos, numa base de madeira ou ferro. Programadas (por um circuito integrado) para acenderem em intervalos de tempo predeterminados, sincronizados ou arrítmicos, as lâmpadas produzem
Revista Gama, Estudos Artísticos. ISSN 2182-8539, e-ISSN 2182-8725. Vol. 1 (1): pp. 53-58.
Figura 2. Maurício Salgueiro. Urbis IV, 1964. Acervo e fotos do artista.