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GAMA 1

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54 Lopes, Almerinda da Silva (2013) “A arte cinética de Maurício Salgueiro: entre a ironia e a denúncia do corpo torturado.”

Figura 1. Maurício Salgueiro, Urbis II, 1964. Acervo e fotos do artista.

Enquanto processo de montagem de imagens, o movimento cinemático permite acelerar ou retroceder no tempo, estabelecendo relações espaço/temporais, não acessíveis à pintura e a outros processos tradicionais. No cinema, o espectador envolve-se visual, emocional e mentalmente com as cenas e situações que se desenrolam no écran, num processo de ação-reação imediata. Desmistificavam-se assim os processos artísticos tradicionais, com a substituição do contemplador passivo pelo interlocutor interativo ou participativo, pois como observou Grénier (2005:18): “a reinvenção da arte iria exigir, antes de tudo, a reinvenção do espectador.” Os avanços da produção, da ciência e da técnica no século XX facultaram a aquisição e o emprego de materiais industriais e de recursos tecnológicos por construtivistas, futuristas e dadaístas, como Tatlin, El Lissitsky, Gabo, Moholy-Nagy, Duchamp, considerados precursores da arte cinética e que prepararam o terreno para criação dos móbiles por Calder, na década de 1930. Até o final da II Guerra, por razões que deixamos de especificar, a produção de objetos cinéticos envolveu pequeno número de artistas. O retrógrado panorama artístico e o incipiente processo industrial brasileiro, não impediram, no entanto, que, na virada de 1940/1950, logo após a redemocratização do país, com o fim do Estado Novo (1937-1945, alguns artistas exercessem papel pioneiro no cenário mundial, criando alguns inusitados objetos cinéticos, que assumiam um viés performático e polifônico. Apenas na década de 1960, número mais expressivo de brasileiros e alguns latino-americanos, originários de países que experimentavam, então, o autoritarismo de ditaduras militares, redirecionaram seus respectivos projetos poéticos, dotando-os de uma base tecnológica, o que não parece mera coincidência.


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