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GAMA 1

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4. A Palavra

O poema Inversión (Figura 4), é um poema construído com fotos, que se constituem como fragmentos de palavras. Em verdade, trata-se de quatro fotos de um mesmo painel luminoso. Em duas fotos, o painel está aceso. Nas outras duas, está apagado. E as fotos do painel aceso e apagado estão intercaladas. O que vemos, portanto, são duas palavras, fragmentadas, e divididas em duas sílabas cada, justapostas e intercaladas. Inversión, pela sonoridade, podemos entender como inversão. Mas, em espanhol trata-se também da palavra investimento. Mas Antunes acrescenta um prefixo a este investimento: VERINVERSIÓN. Ou seja inverter, e rever o investimento. Câmbio. Monetário, e também movimento. Mudança. É um trabalho explícito, painéis luminosos, no entanto, sutil, precisamos lê-lo, decifrá-lo. Explorando as dicotomias entre o preto e o branco/ o escuro e o claro/ o luminoso e o não-luminoso/ o dia e a noite. Vemos uma justaposição de fragmentos-fotos que formam uma palavra-valise que nos faz questionar as normas linguísticas, fundir idiomas, traduzi-los, compreender esta nova grafia, e ver e se posicionar no mundo com olhos críticos. Mudar a ordem, mudar a direção, ou a posição de algo por seu oposto. VERINVERSIÓN: ver a palavra, decifrá-la, entendê-la. VERINVERSIÓNSIÓN. Sonoridade. Inversão seria, no campo linguístico, portanto, uma ressignificação. E, na palavra-valise construída no trabalho, ainda lemos o eco: SIÓNSIÓN. Inversión nos remete a outro poema de Arnaldo Antunes, o Não Tem Que, que é inteiramente construído com fragmentos de placas, formando uma extensa frase construída com fragmentos de placas-palavras-coloridas, e com uma grande diversidade tipográfica. É um poema construído com cacos visuais, mas que nos remetem, imediatamente, a seus respectivos sons, e sonoramente, nos remete a NO THANKS. Conclusão

Tentamos evidenciar o caráter múltiplo da obra de Arnaldo Antunes. Trata-se, de fato, de uma linguagem que foi influenciada pela Poesia Concreta,

51 Revista Gama, Estudos Artísticos. ISSN 2182-8539, e-ISSN 2182-8725. Vol. 1 (1): pp. 45-52.

Portanto, está claro na letra da música, e também no vídeo, do qual mostramos uma foto: o nome que designa algo, é apenas um mecanismo linguístico, criado para nossa comunicação, é um signo linguístico, e portanto arbitrário. Não é o objeto/coisa em si. Na foto do vídeo que temos a seguir, evidenciamos isto: o animal (vaca) é preto, apenas ele, no primeiro plano, dentro da foto, possui esta característica; a palavra preto é algo abstrato, que só se concretiza junto com seu objeto. Aqui, a palavra PRETO foi escrita em branco, para evidenciar, por contraste, os mecanismos de construção da linguagem.


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