48 Oliveira, Daniele Gomes de (2013) “A mão, a voz, o corpo, a cabeça: delicadeza e grito. a palavra: potente: o trabalho intersemiótico de Arnaldo Antunes, e a palavra como força motriz.”
da sonoridade se manter a mesma: hentre/ hos/ hanimais/ hestranhos/ heu/ hescolho/ hos/ humanos. No entanto, todos os versos culminam na palavra humanos, como se todos os animais hestranhos citados pudessem, pela grafia, se aproximar do ser humano, e é justamente na palavra humano, sem erros de grafia, que a tinta surge mais borrada e ruidosa, resultante da tinta escorrida proveniente da escrita das outras palavras: como se fosse o nosso sangue, que circula por nossas veias, e nos mantém vivos: hanimais, e hestranhos: humanos. E, pela forma como se construiu a palavra humanos, com a tinta escorrida, mas também com a ação de desenhar, lemos também manos, de irmãos. Diferentes, mas iguais. Hentranhas, hestranhos. Não estamos sozinhos, somos todos nós: cabeça, tronco, pés, mãos, coração, fluidos: hu-manos. ... 2. O Corpo
Acontece que esta maneira de desenhar letras, palavras, poemas, ora de forma delicada, ora berrada, não é o único campo de atuação deste artista, está intimamente ligado com a forma como ele canta, e como performiza seu corpo. As palavras berradas, gritando letras que são pequenos-grandes achados na língua portuguesa. Ele articula o código de uma forma outra, que é original, com pequenas alterações de sentidos, letras, sonoridades, ressignificando o senso comum, e fazendo do comum algo altamente original. Isso faz com que pessoas com repertórios distintos em poesia compreendam o que ele diz. “Peito Feito”. “Muita Luz Cega”. “Mosquito Enxerga Tudo Gigante”. É simples e complexo, ao mesmo tempo. O tom grave da voz, quando canta devagar. A voz berrada, quando é preciso berrar. Ele possui domínio do seu corpo. O que fazer, como fazer, é o mesmo domínio que tem ao desenhar as letras, e ao manipular o código verbal. Vejamos derme/verme (Figura 2). Em primeiro lugar, pensando apenas no aspecto verbal, é uma paronomásia. No entanto, trata-se de um poema visual. Mas é também uma relação com o corpo, partindo do próprio corpo. As letras, manuscritas, desenhadas, o carimbo da própria mão, pele, reentrâncias, marcas, signos. Trata-se da maneira como cada artista lida com o seu próprio corpo, e aqui especificamente Arnaldo Antunes, que é também um performer. Está ligado com a forma como ele oraliza poemas, como ele berra algumas de suas canções, como ele dança, e performiza seu corpo. Corpo: impregnado de significado. MATRIZ. Do decalque ao movimento potente. Da letra desenhada à voz, berrada. A exploração da palavra, em todas as suas potencialidades, sonoras e visuais, caminhando entre as linguagens, e muitas vezes, fundindo-as. Tanto melhor quanto possamos desenvolver e explorar todas as potencialidades