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GAMA 1

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Oliveira, Daniele Gomes de (2013) “A mão, a voz, o corpo, a cabeça: delicadeza e grito. a palavra: potente: o trabalho intersemiótico de Arnaldo Antunes, e a palavra como força motriz.”

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Introdução

Arnaldo Antunes, 1960, brasileiro e paulistano, é um artista múltiplo. Artista, poeta, músico, escritor. Começou a trabalhar com poesia ainda na adolescência, no colégio Equipe, em São Paulo, onde editou alguns poemas. Também neste colégio conheceu os integrantes de sua futura banda, os Titãs. Cursou por algum tempo o curso de Letras na Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas da USP, mas acabou abandonando o curso, em virtude dos vários shows que fazia com os Titãs. Artista que lida como poucos com o código verbal, e revela com frequência os meandros da construção da linguagem, o que torna seu trabalho muitas vezes metalinguístico. Também explora o que há de infantil na linguagem, portanto uma linguagem forte e sem automatizações, ainda não impregnada pela cultura, por isso original. Além disso, mostra, como poucos, que estruturas simples são, na verdade, altamente originais; no entanto, é preciso saber manipular o código e ressignificá-lo, mas ressignificá-lo com subversão. Neste texto tentaremos mostrar o trânsito entre as linguagens, e como para Arnaldo Antunes este trânsito é fluído, caminhando da palavra para o cartaz, do cartaz para a música, da música para o vídeo, do vídeo para um poema, do poema para um poema visual, e do poema visual para a performance corporal com o uso de palavras. 1. A Mão

Começo a falar pela palavra escrita, desenhada, as caligrafias. Com uma primeira leitura, vemos grandes borrões. Tinta respingada. Tinta escorrida. Fragmentos de signos. E as superfícies ocupadas são bastante grandes, e quando reunidas, formam grandes painéis. Entra-se na sala e o que se vê são ruídos. O papel branco. Grandes manchas pretas. Mas sabendo ser um trabalho do Arnaldo Antunes, que é um artista múltiplo, mas que sempre parte das palavras, e domina como poucos o código verbal, sabe-se que há palavras escritas lá. E não apenas palavras, são poemas. Cada caligrafia é um poema, há um trabalho com a semântica, e o aspecto formal do uso das palavras, recursos usados na poesia. A poesia é forma. Sobreposto a este primeiro campo de significação, que já são dois, se sobrepõe o desenho das letras, o que faz com que apreendamos apenas fragmentos do que está escrito, e tentamos decifrar aquele código, que é tríplice, podendo se agregar também o espaço, a forma como os trabalhos estão no espaço. Formando quatro camadas de significação. Como no trabalho Hentre (Figura 1) nanquim sobre papel. É um poema, cada palavra foi colocada em uma linha. E é um poema caligráfico. Todas as palavras estão alinhadas à esquerda. Há o acréscimo da letra h no início de cada palavra, antes de todas as vogais, o que gera um estranhamento visual, apesar


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