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GAMA 1

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Considerações Finais

A obra de Haruo Ohara apresenta um momento singular da história da fotografia brasileira, na medida em que revela distintas facetas de uma vida, assim como de abordagens voltadas para a fotografia. Estão fundidas na fotografia de Ohara, uma sensibilidade aguçadíssima, o mergulho no registro histórico da colonização recente do sul do Brasil e também a construção de uma obra extensa e complexa que foi formada na proximidade e calor do trabalho rural, por

31 Revista Gama, Estudos Artísticos. ISSN 2182-8539, e-ISSN 2182-8725. Vol. 1 (1): pp. 26-32.

Desse modo, a corporalidade articulada por Ohara é performada numa aura de doçura e leveza, porque, além de enunciar o todo clássico religioso e filosófico da tradição japonesa, também se empenha em construir uma afirmação de harmonia e paz relativa à construção de um Éden migratório, cujo entorno é repleto de conflitos e dificuldades. Alheia ao preconceito e à segregação impostos aos japoneses, principalmente no período da II Grande Guerra, a estética de Ohara neutralizou ou diminuiu os efeitos das vozes e ações preconceituosas. Foi em meio à proibição do idioma japonês em público, ou ainda à obrigatoriedade de dar nomes brasileiros aos filhos ou descendentes, além de muitas outras atitudes sectárias, que Ohara ordenou sua obra num compasso meticuloso e introspectivo, sendo, sobretudo, fiel à sua busca determinada. A obra de Haruo Ohara articula, deste modo, uma obstinada intenção de configurar para si e para a comunidade familiar, assim como para a comunidade de japoneses radicada em Londrina, imagens de si e imagens da produção da terra, num constante reconhecer-se. Os frutos da terra são importantíssimos na obra de Haruo, pois os frutos fartos e maravilhosos são recriados pelo olhar construtivo da fotografia, como símbolos de vitória. Nestas elaborações, a luz é elemento fundamental, pois a luz é a energia vivificante dos trópicos, o calor produtivo do necessário à produção da lavoura. É a luz do sol que faz frutos e flores crescerem e se tornarem a riqueza e fonte de subsistência. As imagens de si (frutos, lavouras, retratos) estão imersas no mundo e espaço imediato que Ohara empenha-se em revelar. Sua obra em preto e branco é assustadoramente voltada para este espaço de si mesmo, que num sentido antropológico celebra e faz erigir identidades. O trabalho rural e a incidência/elaboração da luz são fundamentais para Ohara, no que concerne o período inicial da colonização, que é marcado pelo contato com a terra e pelo estabelecimento da lavoura. A luz protagonista de Ohara é erigida, não como cenário, mas como parte fundamental da performatividade operante dos vários elementos — luz ampla, natural, solar, celestial que desenha volumes e esculpe o trabalho suado da lavoura. Assim, como muitos outros elementos da natureza, a luz tem uma função integradora que tudo interliga, cobre, abraça, e segura.


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