30 Oliveira, Ronaldo Alexandre de & Stratico, José Fernando Amaral (2013) “Imagens da Terra e da Luz na Fotografia de Haruo Ohara.”
Figura 3. Nuvem da Manhã (1952 — detalhe) Terra Boa — PR (CODATO, 2012).
antepassados, à comunhão com a natureza, à beleza harmoniosa da existência humana. A performatividade presente na obra de Ohara está, assim, comprometida com a construção de enunciados que são articulados com esmero. Como em um jardim budista em que cada elemento tem seu significado, os elementos da imagem — a figura humana, a luz, a natureza nas suas mais variadas formas, o movimento e ritmo destes elementos no espaço da composição — tudo isso revela um cuidado por trás da imagem que valoriza, acima de tudo, a arte da composição, a manipulação e ordenação de um poder criativo harmonioso. Este sistema está presente não somente no jardim tradicional japonês, mas também na arte do Ikebana, no Haikai, na escrita e pinturas tradicionais japonesas. Em raros momentos, tais como no auto-retrato entre os pés de café destruídos pela geada, há um sentido de desolação e abandono, ou ainda de morte (Figura 2). Mas, mesmo imerso na desolação do pós-geada, Ohara performa uma corporalidade integrada e equilibrada, que se sustenta pelo repouso sobre um antigo tronco de árvore cortada e provavelmente queimada. A figura leva a mão ao rosto como em uma atitude de desespero que se mistura à postura reflexiva. Interessantemente, esta imagem foi provavelmente tomada pelo próprio Ohara, o que salienta o caráter performático e teatral da composição corporal. Ohara manifesta nesta imagem a necessidade de “estetizar” o momento trágico da geada, para si mesmo, para sua família, assim como para muitos outros agricultores. Este pode ser o reflexo do entendimento da vida e do trabalho, como uma narrativa ordenada que é marcada por episódios que não podem perder o seu sentido harmonioso em relação ao todo. E o todo budista é crescimento espiritual harmonioso; é paz.