29 Revista Gama, Estudos Artísticos. ISSN 2182-8539, e-ISSN 2182-8725. Vol. 1 (1): pp. 26-32.
Assim, em imagens como “Nuvem da Manhã” (Figura 1), Ohara apresenta o homem do campo, o trabalho e o instrumento de trabalho (a enxada) como partes de um todo lúdico e fantástico. É como se o lavrador, figura frágil e esquálida (na verdade, o próprio Ohara) se encontrasse como em um frenesi, ao início de sua jornada, durante o amanhecer, e se deixasse envolver pela grandiosidade da existência no campo. O céu é a figura que protagoniza a imagem, e, neste sentido, Ohara elabora, cuidadosamente, o enquadramento de modo a tornar a figura humana um coadjuvante na imensidão do encontro entre céu e terra. Há uma síntese grandiosa nas relações dos elementos: o céu se expande em um constante movimento, e a figura humana se funde ao solo, como se fosse constituída pela mesma substância. Como em uma dança de vitória, a figura triunfa sobre a terra, a natureza e o trabalho, colocando-se a si mesma como uma criança (Figura 3). Porém, o cigarro na boca, faz-nos lembrar que este não é um menino, mas sim um homem. O equilíbrio da enxada sobre a ponta dos dedos indica a fragilidade de todo este cenário e situação. O equilibrar da enxada é fortuito e instável como são as relações com o lugar, com o país e com as próprias memórias, assim como a fotografia, cuja matéria prima se constitui de frágeis incidências do tempo, do espaço e da luz. Os argumentos e indicações apresentados acima sustentam-se sobre o conceito de performatividade (performativity), como articulado e expresso por Elin Diamond e que, para nós, estende-se ao âmbito das representações fotográficas. Este é um conceito derivado, primeiramente, de análises linguísticas das representações sobre a pessoa (Diamond, 1996: 152-172) e os indivíduos, de modo geral, mas que tem sido ampliado, de modo a alcançar os processos de produção e veiculação de imagens. Ao invés de ser um instrumento para a ação, a linguagem é considerada, ela própria, ação. Palavras, sentenças e discursos podem evocar um poder referente de uma ação, que está contida em um contexto ideológico. Para os teóricos da linguagem, a performatividade existe através das convenções do fazer, por meio do qual as coisas são feitas numa multiplicidade de atos (Diamond, 1996: 5). De acordo com esta visão, qualquer ato se refere a outros atos prévios. A linguagem, assim, assume o papel de representar as coisas de acordo com um modelo ausente. Há, no sentido exposto acima, enunciados que articulam a construção fotográfica de Ohara. Estes são enunciados, provavelmente, muito mais antigos que a chegada dos Ohara ao Brasil, e dizem respeito a ideias e práticas enraizadas na cultura japonesa. O Budismo é, sem dúvida, uma matriz importante para a visão de mundo de Ohara, que não poderia fugir de noções ligadas aos