O Jardim Japonês
Entre a elaboração estética e o registro histórico, permeia a obra de Ohara a presença humana, assim como a do trabalho. Este recebeu um tratamento e olhar que fez com que a rigidez e dureza próprias da relação mantida com a terra e a natureza fossem quebradas. Trata-se de um olhar que constroi uma relação que se destaca do cotidiano, nos mesmos termos em que Richard Schechner argumenta sobre o comportamento espetacular. Interessa-nos esta performance que, elaborada a partir da performance cotidiana, ganha uma espetacularização tal que faz neutralizar ou relaxar a própria relação com o real. O meio fotográfico, desde muito cedo em sua história, demonstrou seu vínculo e potencialidade com o jogo entre a performance cotidiana e a performance espetacularizada ou teatralizada, no sentido antropológico em que Schechner baseia sua teoria (Schechner, 1994). Nesse jogo entre a brutalidade da vida em plena floresta subtropical e a singeleza de um olhar construtivo, Ohara, articulou uma incessante relação entre âmbitos aparentemente antagônicos da existência do imigrante: o trabalho e o prazer, o suor e a beleza, a terra e o espírito.
Revista Gama, Estudos Artísticos. ISSN 2182-8539, e-ISSN 2182-8725. Vol. 1 (1): pp. 26-32.
Haruo Ohara chegou ao Brasil com 18 anos, depois de uma viagem de dois meses, por navio. A família Ohara, constituída pelo casal e seus filhos, estabeleceu-se inicialmente em uma fazenda de São Paulo, seguindo as grandes promessas de vida farta e enriquecimento. No Japão, os Ohara enfrentaram grande dificuldade econômica, sendo difícil a vida para agricultores como eles. Ao se instalar no norte do Paraná, em 1933, na recém fundada cidade de Londrina, em plena selva subtropical, com muita dedicação à terra, os Ohara conseguiram erigir uma estrutura material típica da prosperidade dos tempos iniciais da colonização (Losnak e Ivano, 2003). A imersão de Haruo Ohara pelo campo da fotografia se deu, quando em 1938, em solo londrinense, o agricultor comprou uma câmera fotográfica. Com seu próprio equipamento, Ohara deu início a seus estudos, e, do mesmo modo como havia aprendido fruticultura e floricultura, aprendeu sozinho, guiado pelos manuais, a arte da fotografia. Sua obra tornou-se reconhecida nacionalmente, a partir de 1998, quando Ohara passou a ocupar um lugar de destaque no panorama da fotografia brasileira (Losnak e Ivano, 2003). A obra de Ohara apresenta uma incessante elaboração, construção estética, e um claro sentido de registro e memória. A sensibilidade aguçada do jovem imigrante japonês, desde cedo, o fez se inclinar para as artes; e é admirável que em pleno “desbravamento” da floresta do sul do Brasil, Ohara tenha encontrado espaço e recursos para a manutenção de um constante vínculo com a arte.
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Introdução