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GAMA 1

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176 Zanoni, Fábio de Godoy Del Picchia (2013) “Cláudio Assis e a produção do trágico: pensando a causalidade no cinema.”

preventivo inscrito na figura da personagem mais velha é esvaziado de sua potência performativa: para os que vivem na miséria e da miséria, não há previsão forte o suficiente capaz de alterar os rumos da vida. Com exceção dos meninos ricos, o sertão definiu, previamente, as veredas da vida dessas personagens. Por isso, não obstante a enorme repulsa que Auxiliadora manifesta nas exibições de nudez pública à qual é submetida, ela acaba tomando o lugar de Dora, entrando para o mundo da prostituição, ao passo que, mesmo sem encenar diretamente o futuro de Maninho, o espectador é levado a concluir que este é um proto-Heitor, terminando como o pai/avô de Auxiliadora havia iniciado o filme, sentado num banco, denunciando as mazelas da sociedade. Quando transladado para o sertão brasileiro, o jogo de espelho converte-se em arma trágica, ainda mais impiedosa. Pouco a pouco, é-nos dito que, sob o comando da miséria, o itinerário final das personagens será, inapelavelmente, o mesmo, a despeito das variações causais: pouco importa o nome próprio das personagens femininas, é insignificante que uma delas tenha um pai-avô agressivo e explorador, e a outra não, que Dora se diga afeita à vida de prostituta e que Auxiliadora mostre uma enorme repulsa ao sexo, ao fim e ao cabo, sob o sol do sertão, todas essas determinações divergentes que compunham o perfil das respectivas personagens conduzem, rigorosamente, ao mesmo destino. Conclusão

Quando se trata de pensar as relações entre política e arte, costuma-se atribuir à arte finalidades sociais supostamente superiores às especificidades da montagem estética. Por isso, a quem defenda que todo o fazer estético deva ser submetido ao crivo dos temas considerados politicamente relevantes, como se o fundamental da arte estivesse tão somente ao lado do conteúdo da mensagem veiculada, sendo a superfície do tecido narrativo tão-somente uma espécie de luxo que ainda vigoraria nas dramaturgias ditas burguesas: o tema da arte pela arte é, aqui, combatido com um remédio ainda mais maléfico do que a doença. E se o remédio não faz mais do que agravar o estado do moribundo, isso se dá porque o resultado desse tipo de perspectivação é menos o desabrochar de uma consciência política emancipada e mais o empobrecimento dos nossos instrumentos políticos de análise dos fenômenos estéticos e sociais: a arte não é apenas política quando engajada, militante ou filiada a causas sociais; ela é, indelevelmente, política na medida em que, como outras atividades, ela pensa e faz pensar. A título de conclusão podemos asseverar que o estudo do aspecto formal, por assim dizer, das narrativas cinematográficas, nomeadamente das relações entre causalidade e tragicidade, está longe de ser uma questão de menor


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