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GAMA 1

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Não queremos, aqui, levar a cabo uma descrição exaustiva do filme em questão, queremos apenas destacar como a reposição final do mesmo, a despeito dos diferentes vetores causais, é obrada a partir do espelhamento entre as quatro personagens acima nomeadas, Heitor e Maninho, Dora e Auxiliadora.

O espelhamento nem sempre albergou o trágico. Considere-se o exemplo do filme Um Amor de Verão (Bergman, 1951). Ali, o cineasta sueco já se valia desse dispositivo para dar espessura dramática à trajetória amorosa precocemente interrompida, entre um jovem estudante, Henrik, e uma jovem bailarina, Marie. Tal como ela, também seu tio sofreu, e ainda sofre, em decorrência da morte prematura de seu grande amor de juventude. Assim, na cena em que Marie fita o tio, sentado ao piano, bêbado, palestrando sobre a morte de seu antigo amor, é como se a jovem bailarina, bem como nós, espectadores, antevíssemos o destino sofrido que lhe aguarda. Projeção que é frustrada, entretanto. Por meio da visão de seu futuro pouco promissor, materializado na figura do tio, Marie muda radicalmente de atitude, reconcilia-se com seu passado, podendo, dessa feita, entregar-se, com entusiasmo, ao amor presente. Ao deparar-se com o espelho, a personagem mais nova muda a própria conduta, em relação a si e em relação aos outros, em nome de outro provir: a astúcia do espelho, nesse caso, consiste em fazer com que o fato consumado passado da personagem mais velha seja revivido na contingência do presente da mais nova, a quem ainda os caminhos da vida estão em aberto. Portanto, nesse filme de Bergman, a fórmula trágica por excelência — já é tarde demais — restringe-se ao polo mais velho do espelho. Pensemos, por exemplo, na cena em que o tio de Marie, novamente bêbado, força a entrada do quarto da sobrinha e veremos como as personagens velhas, por mais que insistam, encontrarão a porta do passado fechada. Na melhor das hipóteses, à personagem velha é dada a possibilidade de imputar outro sentido à vida pregressa. É o que faz o protagonista de Morango Silvestre (Bergman, 1957). No confronto com outras personagens mais jovens, nomeadamente o filho e a cunhada, diferentemente do tio de Marie, o velho médico não tenta reviver no presente as experiências passadas, pergunta-se apenas o que elas foram, esforçando-se por ajuizar e avaliar, de modo favorável ou não, sobre a própria trajetória de vida. Se é verdade que o espelhamento pode dar lugar ao famigerado happy end, não é menos verdade que tal recurso pode servir para introduzir certa dimensão trágica. Isso porque, nas mãos do diretor brasileiro, a fórmula já é tarde demais é igualmente aplicada ao universo da juventude. Isto é, o caráter antecipatório e

Revista Gama, Estudos Artísticos. ISSN 2182-8539, e-ISSN 2182-8725. Vol. 1 (1): pp. 173-177.

2. O jogo de espelho


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