174 Zanoni, Fábio de Godoy Del Picchia (2013) “Cláudio Assis e a produção do trágico: pensando a causalidade no cinema.”
que uma coisa acontece por causa de outra ou depois de outra. É uma simplificação da noção de causalidade supor que a causa seja simplesmente o que emerge imediatamente antes desta ou daquela cena em questão. Chaplin sabia-o muito bem. No filme O Garoto (Chaplin, 1921), após recuperar seu filho adotado das mãos da carrocinha do orfanato, Chaplin refugia-se numa pensão. Na entrada, acompanhamos Chaplin a vasculhar seus bolsos, sem encontrar nenhum vintém. Quase nenhum. De costas para o dono da pensão, à beira da saída, o vagabundo apanha uma moeda, salvando o descanso noturno. Preparando-se para deitar-se ao lado do garoto, o vagabundo é surpreendido por uma mão a tatear sua calça. Ele apenas sorri, pois, há pouco, havia verificado o nada a povoar o próprio bolso. Para seu espanto, entretanto, o dedo do ladrão pesca uma pequenina moeda. Num primeiro momento, o vagabundo apenas recupera-a. É quando advém o cômico: o vagabundo decide reintroduzir a mão intrusa no próprio bolso da calça, como se aquela tivesse sido a produtora do dinheiro. Tudo se passa como se Chaplin encenasse uma forma de simplificação da noção de causalidade, ensinando-nos, mesmo que às avessas, acerca da complexidade dessa noção. O objetivo do presente artigo consiste precisamente em verificar, por meio da análise do filme Baixio das Bestas (Assis, 2006) uma hipótese pouco habitual sobre a noção de causalidade: sucessivas encenações de causas e efeitos não conduzem, necessariamente, a um novo estado de coisas, podendo desembocar na situação desenhada no início da trama. 1. Baixio das Bestas
O filme Baixio das Bestas começa com uma menina a ser despida por um velho. Em pouco tempo, descobrimos que Heitor, o tal velho, um sujeito moralista, que está sempre a denunciar as mazelas do mundo, é seu pai e também seu avô. A exploração não se limitará ao campo sexual: à menina Auxiliadora não será facultada nem mesmo os lazeres mais vulgares, como ver televisão ou flertar com Maninho, o jovem dedicado a cavar o poço de água à frente de sua casa, visto que ela é obrigada a cumprir as tarefas domésticas ditadas pelo seu pai/avô. É noite. Bêbados, o grupo de meninos ricos diverte-se no prostíbulo. Everaldo, interpretado por Matheus Nachtergaele, capitaneia a farra. Entre todas as prostitutas, o líder do grupo elege, justamente, a mulher que havia declarado seu desgosto em relação à vida de prostituta, desgosto que, segunda ela, é tanto mais insuportável quanto mais se vê forçada a lidar com criaturas como Everaldo. Apesar das investidas deste, a prostituta recusa-se a participar da festa. Por isso, é brutalmente espancada e estuprada. Do mesmo modo, mais a frente, Dora, a prostituta que se alegrara com o espancamento da colega, é, por sua vez, violentada no velho cinema abandonado, após ser expulsa do bordel no qual trabalhava.