170 Fazzolari, Cláudia (2013) “O confronto diário proposto na série ‘300 mentiras’ de Pilar Albarracín.”
uma imagem que inicialmente potencializa a cena de glamour dos certames de uma pseudobeleza feminina, com as medidas ideais e a corporificação do padrão estabelecido pela mídia, ou seja, o sorriso milimetrado, o vazio de olhares construídos pela marca institucional do modelo de evento consagrado, o aceno delicado que denuncia a constituição de uma artificial convivência padronizada. Em todas e em cada uma das candidatas do certame, temos a protagonista da cena, a mentira encenada, incorporada ao discurso da imagem que se presta ao elogio da farsa. Nunca estamos confortáveis quando Pilar Albarracín nos aciona como cúmplices de suas ações performáticas. De fato, somos movidos pela insistência de nossa percepção cotidiana, diante dos fatos narrados, o que torna muito nebulosa nossa compreensão. Pela via da cumplicidade seremos levados adiante, a investigar melhor os rumos de uma estratégia de reinvenção de realidades construídas pelo criterioso processo de emancipação de muitas invisibilidades acumuladas. Em Mentira nº 22 a artista inverte o registro de nossas expectativas habituais e passo a passo, ou melhor, pose a pose nos conduz por uma via de revelações algo desconcertantes. Em meio ao planejado espaço de sedução, pensado desde a imagem, encontramos outros depoimentos sobre os lugares da condição subalterna: não se sustenta o padrão ou a projeção homogênea de tipos midiáticos, não se mantém o rigor de um campo único de interpretação do humano. Percebemos a diversidade que se manifesta pelo olhar desconfiado proposto pela obra, que nos interroga e questiona o estatuto sexual da imagem. Pouco a pouco nos percebemos conduzidos pela dinâmica de uma suposta permanência sexual — vemos mulheres inclusive onde não estão presentes — ainda que o grupo admita a dúvida, mesmo quando a incerteza se estabelece na construção de uma outra chave narrativa. Desconfiada e insinuante, a leitura ficcional de Pilar Albarracín promove outra forma de compreensão do entorno cultural contemporâneo. Sua mentira interrompe coordenadas de nossa percepção e instaura o embaralhamento de nossa compreensão, emancipando um registro questionável. 4. Mentira nº 68
Quando pensamos no conjunto de sua produção, ou em uma parcela de sua performance documentada em vídeo ou ainda em uma imagem específica de sua trajetória como em sua obra Mentira nº 68 (Figura 3) somos, de alguma forma, cúmplices de um ato de resistência? Mentira nº 68 explicita em via pública o ambiente caracterizado pelo abuso de poder, pelo excesso de força física, pela marca institucional de tramas