Diante da imagem fotográfica nos deparamos com a incerteza da cena: entre quatro supostas mulheres supostas porque o traje as identifica pela pseudosugestão do sexo, ou seja, pelo acento que a vestimenta carrega como sinalizadora de um espaço de gênero determinado apoiadas em um gradil de ferro, observando o que se passa em outro plano, de costas para o olhar que acompanha o ensaio fotográfico em suas intenções, três delas são alvos móveis, estão marcadas nas costas com um evidente ‘x’ que novamente identifica e singulariza para a ocasião e, sinaliza sobre a condição predestinada que lhes cabe cumprir na sociedade, marcadamente tomada pela conduta estabelecida desde a extensa série de representações culturais admitidas como corretas. Caberá ao teor das obras de Pilar Albarracín rever o estatuto de invisibilidade de corpos e de ações contaminadas pelo convencionalismo de posturas estratificadas, de representações culturais consolidadas pelo tempo de exposição de suas trajetórias de vida ao drama da existência cotidiana. 3. Mentira nº 22
Somos os seus interlocutores em um diálogo que nos emancipa momentaneamente como vítimas conscientes de um itinerário ficcional. Em outra obra da mesma série intitulada Mentira nº 22 (Figura 2), como exemplo, que pode ser apreciada na página da Galeria Filomena Soares, em seu endereço eletrônico, www.gfilomenasoares.pt, a artista nos aproxima de um universo situado pelo estereótipo — conjuntura especialmente selecionada pela sua poética visual — de
169 Revista Gama, Estudos Artísticos. ISSN 2182-8539, e-ISSN 2182-8725. Vol. 1 (1): pp. 166-172.
Figura 1. Pilar Albarracín, série 300 Mentiras, Mentira nº3, 2009, fotografia a cor, Ed. 4/5 + 1 + P. A, 125 × 187 cm. Fonte: Galeria Filomena Soares.