Em todas as mulheres e em cada uma delas insiste em manifestar-se a inquietação de Pilar Albarracín. Cada ação, em sua marca encarnada, incorpora uma insistente chamada ao corpo, compreendido como construção cultural e requer de sua criadora um olhar que reverte o discurso da condição subalterna e questiona os lugares sociais destinados à invisibilidade (Fazzolari, 2009: 21).
Diante de suas séries fotográficas, de grande formato, somos tomados de assalto. Quando nos damos conta, somos conduzidos pela estratégia de uma narrativa de face esquizofrênica. Em uma cena ampliada, no conjunto de uma mostra individual da artista, somos confrontados pela estranheza dos fatos narrados. 1. A série 300 mentiras. Un proyecto de Pilar Albarracín
De sua produção recente, na série 300 mentiras. Un proyecto de Pilar Albarracín a artista estabelece um eixo paradigmático sobre a tênue margem da suposta horizontal realidade: Me interesa contar historias que sean mentiras pero que se puedan registrar como posibles. Es un proyecto en el que voy a ilustrar 300 mentiras o menos con fotografías, videos y objetos que rememoran tradiciones e historias que nunca han existido pero que tanto formal como conceptualmente podrían resultar perfectamente creíbles. [...] Haré un recorrido de las mentiras históricas desde los aspectos más universales hasta los detalles casi imperceptibles (Albarracín, 2009: 2).
O projeto 300 mentiras, em síntese, dá vazão a ficções em que sempre Pilar Albarracín é uma das pseudoprotagonistas do fato narrado e como incansável agente de nossos transtornos, insiste para que tenhamos a incômoda sensação de uma virtual consistência da realidade.
167 Revista Gama, Estudos Artísticos. ISSN 2182-8539. Vol. 1 (1): pp. 166-172.
seremos confrontados pela densidade de seus projetos. Entre suas obras conhecemos as marcas de um itinerário crítico pronunciado pela lucidez da denúncia e pelo rigor de séries comprometidas com o debate sobre gênero, que se alarga na contemporaneidade. Pilar Albarracín, artista multimídia nascida em Sevilla, é uma mulher que insiste em propor rumos alterados para a percepção conjuntural que associa o outro à invisibilidade cotidiana. Esse outro — especialmente a mulher em suas obras e performances — permanece como um ativo interlocutor, responsável pelo eixo ficcional de uma potência quase inenarrável, quando situa o lugar da condição subalterna. De acordo com a insistente tônica de sua combativa ação performática, se delimita sua zona de conflito: