Referências Agamben, Giorgio. (2009) O que é o contemporâneo? E outros ensaios. Chapecó: Argos. Barthes, Roland. (2003) Como viver junto. São Paulo: Martins Fontes. Maturana, Humberto e Varela, Francisco. (1995) A Árvore do Conhecimento.
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Editora Psy: Campinas. Carvalho, Gilmar de (2010) “Arte e restos humanos: o Jangurussu de Descartes Gadelha.” In: MAUC. Catadores do Jangurussu: retrospectiva. [Consult 2013-01-10]. Disponível em <URL: Disponível em: http://www.mauc.ufc.br/ expo/2010/08/index1.htm
165 Revista Gama, Estudos Artísticos. ISSN 2182-8539, e-ISSN 2182-8725. Vol. 1 (1): pp. 161-165.
medo. Não é violento. Embora as principais linhas da composição indiquem o movimento de aproximação entre os dois, isso não se perfaz na tela. Sua possibilidade, todavia, não está excluída. Neném olha e escuta atentamente: delata-o a orelha direita descoberta por um, parece-me, sopro, talvez o bafo estafeta do que lhe secreta o bico semiaberto da ave. E entende tudo, porque ‘presta atenção.’ Qual a natureza desse encontro? Certamente não tem a ver com encantos, ficções românticas, publicitárias ou hagiográficas, e não é um retorno à animalidade que está em jogo. Chico Neném não fala com os bichos como Francisco, por milagre, ou como o xamã, porque um silvo mágico enfiou-se lhe no ouvido e, simplesmente não pode evitar. Ele não domestica os bichos, como Robinson Crusoé, o cabrito. O urubu não é para ele nem reserva de alimento, nem reserva de afeto: um comensal ‘substituto’ do homem, um criado [presença humilde, não agressiva. = Função atual de ‘domesticação nas cidades’ (Barthes, 2003: 51)]; não é criar afeto com o poder, criar um poder-afeto, usar o poder para receber afeto (Barthes: 51). O urubu cartesiano, seus bichos todos, arrisco, não têm propensões antropofílicas, não têm capacidade de 1. ´imprinting´ [“O jovem animal selvagem, no decorrer de uma experiência única, se apega ao homem: relação de subordinação-dominação rapidamente fixada” (Barthes: 52], 2. Capacidade de adestramento, 3. Capacidade afetiva (não como os homens!), 4. Capacidade biológica de suportar a vida em cativeiro (Barthes: 52-53). Em Catadores do Jangurussu, o comércio entre homens e bichos é outro. É outra política que a da subordinação de um reino ao outro. Neném e o urubu acareiam-se em pé de igualdade. “É assim mesmo, cada dia é a mesma coisa. Aqui tudo é igual porque todos estão com fome. Tanto faz ser urubu, rato, tapuru, cachorro, coruja e gente é tudo igual na catação. É o cotidiano” disse dona Isolda, habitante do lixão, ao pintor.