163
com situações limites para o ser humano” (Carvalho, 2010) —, eles se refastelam, nem primeira nem última vez, com um feto, num banquete antropofágico. E, ao comerem-no, tornaram-se ele, porque não há modo mais eficiente de se tornar o outro que o comendo: óbvio princípio antropofágico.
[Fastio da escrita e televisão. Na Sessão da Tarde, o filme série ´C´, Princess (Em busca da princesa dos mitos), equaciona tudo o que me tem dado tratos à bola, por uma dúzia de dias, num encantamento. Na fantasia (melo)romântica, kitsch e teenager, Ithaca, princesa encantada (uma bruxa, uma wicca?), com dom de falar e curar (um xamã, um pajé?) elementais (unicórnios, fadas, gnomos, etc.) luta, ao mesmo tempo, para encontrar, nas ruas da Nova Iorque atual, o amor verdadeiro, também encantado e predestinado, e uma sucessora que garanta, por mais um ciclo, o perfeito e frágil equilíbrio entre os dois reinos, o real — a urbe, a civilização, a cultura — e o encantado, ´era uma vez´, lugar da não-disjunção entre homens e bestas. Não há tensões, contaminações, desterritorializações, linhas de fuga ou devires. Há, sim, uma ordem preestabelecia, in illo tempore, por uma energia erótica mágica que deve ser mantida também por essa força charmosa sob pena de comprometer o equilíbrio eco-cósmico. Sem subverter em nada o folhetim, o beijo apaixonado que precede a cartela do ´the end´ anuncia o final feliz da fábula cuja moral é: a magia do amor tudo pode (até refundir natureza e cultura)!] [Acordo, fumo enquanto o vídeo sugerido em destaque na página inicial do meu provedor descarrega. Nele, a pequena Tiny Tansy, dezoito meses, brinca com gorilas da planície: desce com eles no escorregador, dá-lhes frutas, cobre-os e a si mesma com palha, deixa-se carregar por eles. A menina não demonstra medo ou desconforto, muito menos que dimensiona os riscos (eles existem?). A situação é de absoluto controle; quase. Tudo se passa nas dependências do Howletts Wild Animal Park (Bekesbourne, Inglaterra), numa jaula, com gorilas domesticados, sob o olhar da câmera, há indícios de outras pessoas e do próprio pai de Tansy, Damian Aspinall, dono de cassino e conservacionista inglês, ali. Nem isso, nem a trilha apaziguadora, nem o testemunhal em voz over sobre amizade e confiança entre homens e animais, nem mesmo o fato de saber que as imagens são do início dos noventa, e que hoje, aos 23 anos, Tansy passa bem e apoia a atitude de Damian: nada elimina o pixé de selvageria que impregna cada frame do viral feito para arrecadar fundos em favor da Aspinall Foundation. Nos comentários, que se dividem entre odes à beleza da pura natura e posts indignados com o pretenso risco iminente imposto à criança pelo próprio pai, alguém pergunta:
Revista Gama, Estudos Artísticos. ISSN 2182-8539, e-ISSN 2182-8725. Vol. 1 (1): pp. 161-165.
Urubu