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GAMA 1

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162 Junior, Antonio Wellington de Oliveira (2013) “De homens e bichos na série ‘Catadores do Jangurussu’ de Descartes Gadelha.”

cronicidade da série, renunciam à função referencial que a figura pode remeter de imediato — e quem se ativer a esse aspecto somente da pintura de Descartes (proporção, simetria, homogeneidade técnica, perspetiva, e tantos outros cânones da arte ocidental de antes e depois das vanguardas vintistas) há de achá-la falha e incoerente, imprecisa e imatura; engana-se! — para sondar os limites sempre imprecisos entre natureza e cultura (...ou para deixar ainda mais clara a fronteira entre civilização e barbárie?). [Allulu, Anubis, Thot, Pã, Minotauro, Medusa, Cernunos, Morrígan, Ganesha, Hanuman, Xuan Nu, Iara; Drácula, o lobisomem, o boto; Gregor Samsa; Mulher-Gato (Batman, não! Apenas um homem fantasiado de morcego: sem contaminações, sem hibridações, sem mutações!), Spiderman; X-Men: no mito, na religião, nas lendas, na arte... nas culturas, em todas elas (na pop também!), esses seres de borda são uma constante antropológica, uma permanência do espírito humano. Talvez porque reflitam a angústia ancestral, nunca absolutamente resolvida, do pretenso e falso descolamento entre natureza e cultura, nostalgia do Éden, da era quando os bichos falavam; porque dizem da besta indômita em nós; porque sua potência (erótica e política!) não reside na mera soma dos valores dos termos da função, nem ampliação de campo semântico pura e simplesmente, o que vem daí, dessas desterritorializações, dessas cópulas, é tão imprevisível, incontrolável e indefinível, como o que produz em mim os seres-coisas de Bosch, as taxidermias de Molina, os sátiros de Matthews Barney, o homem-cão de Rodrigo Braga... Imagino o que pode nascer daí como imagino o que pode nascer da cópula entre a bela e a fera de Henri Rousseau.] Cães

A ciranda macabra em torno do aborto num saco plástico em nada lembra o convescote prosopopeico de Coolidge, no qual a maior contravenção é a jogatina. Nem seus participantes carregam nada da atitude domesticada dos de Lucien Freud, quase-aias, sempre aos pés ou aninhados nos colos de seus senhores; não têm a lealdade — até a morte — de Argos e, dos de Goya, longe das alegorias românticas da cabeça que quase se afoga numa vastidão de nada, achegam-se mais aos da Tauromaquia (há ainda alegoria aí, bastante, sei, mas a crônica é também inegável!), cheios de fúria e voracidade tantas quantas as dos que Balboa lançou sobre os autóctones sodomitas do novo mundo; parecem-me, sim, os de Tamayo: essas presas brancas, agudas e sempre à mostra, a língua encarnada; essa atitude selvagem, enfim. No lixão, os cães nem sempre são os melhores amigos do homem. Agora — digo, na tela! Na verdade, em duas: penso no terror que fez Descartes pintar a cena de novo: “Não deve ter sido fácil para o artista esta convivência


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