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GAMA 1

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Imaginar o texto

A prática da escrita, como a realizada na pesquisa de dissertação de mestrado “Lugares Moles” apresentada pelo artista brasileiro Jorge Menna Barreto à Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo em 2007, demonstra que é possível desenvolver um projeto rigoroso que oferece uma linha de trabalho que, além de conduzir o leitor dentro do tema proposto, se expande em busca de aproximar-se de questões que se apresentam como essenciais. O assunto de sua pesquisa é a situação “site-specific”, termo que, nas artes visuais, indica trabalhos cuja natureza principal é serem elaborados para um evento e/ou local específico. Para desenvolver seus estudos, o artista trata de algumas de suas obras por meio do que ele denomina “método negativo” — que consiste em escrever o título de seus trabalhos visuais já realizados com um risco sobre as palavras (que pode também incluir o corte da página), fato que os colocaria não mais como os trabalhos em seu momento de acontecimento, mas como os trabalhos ao serem analisados. Retira sua obra do “site-specific” para o qual foi criada para recolocá-la nesse novo local que é o ambiente critico de uma avaliação escrita. Os trabalhos passam a ser, por esse desdobramento

157 Revista Gama, Estudos Artísticos. ISSN 2182-8539, e-ISSN 2182-8725. Vol. 1 (1): pp. 156-160.

Quando se escreve sobre artes visuais, é gerada uma outra etapa para esse mundo imaginado. Aquele universo sensível se transforma em algo diferente porque adaptado para as palavras — com a intenção de comunicar constelações particulares a outros olhos. Ocorre, dessa forma, uma dupla imaginação, aquela que a imagem gerou e uma outra que dela decorre — interpretação escrita da primeira. Só um extenso desejo de compartilhamento pode fazer com que esse delicado trajeto ocorra. Em um texto, quando falo sobre um aspecto que me mobiliza, não falo sobre algo que talvez seja mais importante para outro observador. E mais, se discorremos sobre algo que o leitor não viu, estamos daí tornando o texto mais relevante que o próprio trabalho. Como artistas, como enfrentar a redução daquilo mesmo que fazemos? Como escrever sobre arte visual de modo relevante, não se deixando levar por uma busca de verdades inalcançáveis? Atualmente a produção de artes visuais encontra-se extensamente vinculada à atividade da escrita como resultado de uma elaboração intelectual do artista sobre o próprio trabalho, especialmente dentro dos meios acadêmicos. Dentro dos contextos textuais abarcados pelas artes visuais, essa atividade pode carregar um “imaginário” que possibilite que sua produção esteja imbricada ao trabalho artístico, ou melhor, ao modo de pensar do artista podendo constituir uma face menos estereotipada, mas não menos relevante à abordagem intelectual do tema a que se refere.


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