152 Assis, Sissa Aneleh Batista de (2013) “Quando a arte não cala.”
Figuras 1 e 2. Ação-intervenção performática de Lúcia Gomes, Mênstruo Mostra Monstro Mostarda, 2006. Fonte: Lúcia Gomes (s.d).
em pleno século XXI, a sociedade brasileira desconhece a totalidade das mulheres que foram assassinadas, presas e sofreram todos os tipos de atrocidades autorizadas pela ditadura militar. Os acusados de tais crimes não foram punidos. O protesto artístico ligado aos elementos simbólicos femininos, Mênstruo Mostra Monstro Mostarda (Figuras 1 e 2), aconteceu com uma ação-intervenção performática em homenagem à missionária americana Dorothy Stang, assassinada em 2005 no Estado do Pará, a qual lutava no campo contra questões de exploração humana, fundiária e ecológica. A ação foi realizada em um bairro da cidade de Belém, no Dia Internacional da Mulher (oito de maio de 2006) — data ideal para se levantar política e artisticamente questões milenares referentes à situação das mulheres na sociedade —, a artista com roupa preta, cor de luto, despeja tinta vermelha em um canal de dejetos, a qual se mistura ao esgoto formando um rio de sangue (Figura 2) para lembrar a perda da vida de milhares de mulheres e da realidade violenta vivida por elas. A artista simbolicamente despeja o mesmo sangue que somente a mulher é capaz de oferecer a outrem no período de gestação de mais uma vida. Gomes enfoca os conflitos e injustiças rurais, fazendo-os ecoar no centro urbano. Assim, incomoda a imparcialidade e a frieza da urbe. Artista, mas militante; protesta, mas com arte; libertária, mas com responsabilidade; crítica, mas consciente; engajada na luta social, mas contrária a qualquer tipo de violência e ódio. Mulher sim, mas não ingênua. Por tudo isso, Lúcia Gomes usa a arte de contestação como forma de protesto político e poético ao chamar a atenção para os crimes contra a vida. Propõe um olhar crítico-social para as aflições sociais em que vivemos, sobretudo, ao revelar a