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GAMA 1

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Nosso entendimento do que seja o efeito político da arte ultrapassa a mera conscientização sobre conflitos. Seja qual for a natureza desses conflitos, o fundamental é que a arte seja capaz de, por meio do impacto que possui sobre nossos sentidos, alterar o modo como nos relacionamos com o entorno físico e afetivo (Anjos apud Costa, 2007: 8).

A subjetividade política de Lúcia Gomes escolheu a arte para lhe ser a forma ideal de conscientização, sendo assim, pode unir harmonicamente o sensível, o político, a estética e a ideia-conceito na arte. Logo, une duas formas de luta: a verdadeira política e a necessária poesia. Gomes produz a sua arte imersa em um ‘extravasamento crítico estético-social’ (Arantes, 2005: 21), está inserida na arte nacional engajada, a qual exige responsabilidade social — nominação lançada pelo poeta brasileiro Ferreira Gullar na década de 60. A prática artística militante da artista é uma prática do comprometimento. Por este motivo, as deserções, dicotomias e atonalidades do meio ambiente rural e urbano são temáticas constantes de suas obras, como: violência contra mulheres e crianças, valores e degradação humana, exploração e cultura amazônica, identidade e gênero feminino. Algumas das obras escolhidas para compor este trabalho, abordam essas temáticas supracitadas. 1. Protestos a favor da vida

Os crimes — diretos ou indiretos — cometidos contra tantas mulheres durante as décadas de ditadura militar no Brasil, foram relembrados pela interferência 1964DITADURA1985, que faz parte do projeto aBRa. Sendo realizada primeiramente no projeto 48H Ditadura Nunca Mais (2001), e posteriormente, em banheiros públicos (2008) e no Museu Casa das Onze Janelas (2009) no Estado do Pará. A interferência era constituída por fotos com o rosto da artista de olhos fechados deixadas em supostos lugares de torturas, uma referência às mulheres que sofreram todos os tipos de crimes durante o período da ditadura; e ainda,

151 Revista Gama, Estudos Artísticos. ISSN 2182-8539, e-ISSN 2182-8725. Vol. 1 (1): pp. 150-155.

Lúcia Gomes objetiva chamar a atenção da sociedade para os problemas sociais ainda vigentes na sociedade contemporânea e, consequentemente, sensibilizá-la. Politicamente correta e ativa, a artista usa as práticas artísticas para expressar seu mal-estar e chamar a atenção para abusos, violações, permanências das mazelas sociais. Uma sociedade que, se por um lado, é evoluída para as novidades da tecnologia, ávida por prazer, sagaz consumista; por outro, é ainda arcaica e cruel em seus costumes humanos, vivendo na linha tênue triádica entre o humano, o desumano e o subumano. O pesquisador e curador de arte Moacir dos Anjos justifica o efeito político de os questionamentos artísticos sobre arte e política da seguinte maneira:


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