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GAMA 1

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140 Ribeiro, Walmeri (2013) “Falsa ilusão de uma não interferência.”

Durante a pesquisa para o desenvolvimento do roteiro que inicialmente abordaria como questão a utopia, Ricardo visitou inúmeros asilos da cidade de Buenos Aires, até encontrar Olga e Marilu. Duas senhoras moradoras de asilos diferentes, com corpos fisicamente bastante distintos, mas com a espera ou a permanência como ação comum. Os ensaios, ou o laboratório de criação como preferimos nomear, tiveram duração de duas semanas e uma semana de filmagem, tempo para que as atrizes-performers conhecessem as fraquezas e limitações uma da outra. O filme é a realização de um jantar à espera de alguém. Fraquezas, limitações, diferenças trazidas pelas atrizes e apropriadas pelo diretor, durante o tempo de convivência. Para além das questões impressas no corpo, as histórias pessoais das duas atrizes, as preferências musicais, foram o substrato para o desenvolvimento das cenas e dos procedimentos de direção. Assim, Convite para Jantar com camarada Stalin, nos faz refletir como apenas um corpo no quadro consegue construir uma narrativa cinematográfica. No entanto, ao propor como procedimento a convivência e gerar em sua direção a falsa ilusão de uma não interferência, as obras de Ricardo Alves Jr, aproxima-se do que nomeio como uma busca estética pela espontaneidade. Uma estética que traz como enfâse o rompimento com a representação e a valorização da experiência e da “presentação.” Por uma Estética da Espontaneidade

Ao propor uma estética que valorize mais a presença do que a representação, o cinema de Ricardo Alves Jr. prima por uma ideia de tempo presente, de um acontecimento que se desenrola no aqui e agora da ação, gerando uma ilusão de que aquelas ações, emoções, sentimentos etc, pertecem ao cotidiano dos atores, ou seja, que a câmera apenas captura aquilo que está acontecendo, como se documentasse uma ação cotidiana. Contudo esta ilusão de não interferência, proposta pelo diretor, busca não uma estética realista, mas sim uma estética da espontaneidade, da fluidez no processo criativo, gerando essa opacidade nas marcas da direção. Mas, é na presença do ator, a partir da potencialização desses corpos, que a espontaneidade é construída, pois esta é fruto da ação de trazer algo à tona, ou seja, da poiesis. No entanto, a espontaneidade traz consigo a singeleza e o frescor de algo que acontece no aqui e agora da ação, tornando-se, por um lado, uma característica estética, que está impressa na obra. Uma estética fruto de uma ética fundamentada na experiência investigativa e na relação de colaboração e convivência entre diretor e ator.


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GAMA 1 by belas-artes ulisboa - Issuu