Conclusão
A obra cerâmica de António Vasconcelos Lapa exterioriza uma iconografia interior que nos proporciona o acesso a vivências de infância. A natureza dos contos infantis apresenta-se como um território favorável à criatividade, oferecendo cenários catalisadores à génese das obras, e constitui um dos referentes transversais no seu percurso de trabalho. A linguagem visual de António Lapa, onde prevalece um universo onírico,
135 Revista Gama, Estudos Artísticos. ISSN 2182-8539, e-ISSN 2182-8725. Vol. 1 (1): pp. 130-136.
referências que remetem para memórias de infância, estabelecendo uma analogia com alguns brinquedos. O ceramista refere que: “as minhas criações são desenvolvidas para serem tocadas, gosto que mexam nas peças, que sintam a sua textura, o seu som, e construam novas histórias” (Lapa, 2012). Considerando este aspeto, as possibilidades de construção, desconstrução e intervenção direta do autor ou do público, Eduardo Nery (2011) inscreve António Lapa num conceito alargado de “art in progress” (Nery, 2011). A procura incessante de novos caminhos expressivos resulta num processo de pesquisa e de atividade experimental permanente, onde o autor procura articular aspetos artísticos, técnicos, visuais, tácteis, sonoros e espaciais. António Lapa tem procurado estudar e conhecer as possibilidades técnicas de pastas de modelação, nomeadamente o grés, e tem efetuado experiências com a incorporação de novos materiais, tais como borracha e metais. De salientar igualmente a dimensão acústica que este criador tem procurado incluir nas suas cerâmicas (Figura 6), que por ação do observador, ao mover os elementos componentes das obras, possibilita a obtenção de diferentes sons. De referir ainda nos trabalhos Vicente (Museu Bordalo Pinheiro, Março / Junho, 2011), Caminhos (Casa de Santa Maria, Cascais, Julho / Setembro, 2012) e no novo projeto em curso (intervenção no Jardim de Santos, Lisboa, 2013), decorrente de um convite no âmbito da Semana Internacional de Design, a intenção de diálogo com a orgânica do espaço envolvente. O autor regista as características do espaço natural ou construído e procura integrar as peças, de modo que se estabeleça uma ligação de reciprocidade — dar e receber. Segundo o ceramista esta intenção visa tentar criar uma relação de concordância com a luz, a sombra, o vento, a morfologia das árvores e dos edifícios, ou o barulho da cidade, por exemplo. Observamos assim na cerâmica de António Vasconcelos Lapa a reinvenção de um universo interior ‘que nos propõe uma outra natureza paralela à nossa’ (Nery, 2011), possibilitando revisitar memórias de infância, a fruição multissensorial na perceção das obras e na construção de sentido, a que se associa a necessidade de experimentação e inovação.