2. O lúdico, a experimentação e a inovação
A par do imaginário e do reportório fantástico, as cerâmicas mais recentes de António Lapa revelam a sua ânsia de fazer algo novo, diferente e inovar. A proximidade e a interação do público, com as peças, são particularidades tidas em conta durante o processo criativo. As obras que elabora invocam afeto, diálogo e pretendem oferecer ao observador a possibilidade de participação direta, através da fruição pelo tacto ou a experimentação e reorganização de alguns elementos soltos (Figura 5) (Nery, 2011). Encontramos nestes registos, constituídos por módulos e peças de encaixar,
133 Revista Gama, Estudos Artísticos. ISSN 2182-8539, e-ISSN 2182-8725. Vol. 1 (1): pp. 130-136.
destas peças, advêm de procedimentos tradicionais de modelação do barro, com posterior aplicação de engobes, polimento com seixos e aplicação de ceras. A sobriedade da paleta de cores apresentada (condicionada pela natureza dos engobes, a que se acrescentam alguns pigmentos) é contraposta pelo dinamismo intrínseco às formas e pelas linhas de composição, possibilitando o afastamento de metodologias mais simples de trabalho com argila. O evocar de memórias de infância é uma constante no trabalho de António Lapa, mas será com o neto Vicente que surgem novos cenários de criação. O poder de observação de Vicente, as questões sobre o mundo envolvente (as plantas, os pequenos insetos, os animais, as cores, etc.) e os relatos de histórias extraordinárias geram mudanças notórias no seu reportório plástico. Observa-se um novo fascínio pela cor, pelo detalhe, pelos seres imaginários (Figuras 2 e 3), e a reinvenção de ambiências que acolhem fauna e flora com uma escala acentuada. O olhar torna-se mais atento, invocando para primeiro plano elementos e formas do dia a dia por vezes descuradas. Os projetos Cerâmica no Ateliê (2008) e Vicente (2011), por exemplo, evidenciam as transformações registadas na cerâmica de António Lapa — surge um outro mundo intimista sem fronteiras, cujos “seres (…) fazem parte de uma mitologia pessoal, algo juvenil” (Bebiano Braga, 2011). O discurso linguístico de António Lapa passa a desvendar uma figuração onde predominam sementes, frutos, répteis e dragões, caracterizados por uma ampla, exuberante e luminosa paleta de cores, cujas formas ganham maior fluidez na conquista do espaço. De registar também o tratamento minucioso das superfícies e do revestimento das obras; este torna-se mais relevante, passando a adquirir novos valores tácteis (Figura 4). Observa-se ainda, a par desta semântica, que o autor considera, no desenvolvimento das obras, o contexto / cenário onde as mesmas se inserem. Assim, os novos seres coabitam um espaço povoado com uma flora exótica, composta com árvores, arbustos, flores e sementes com escalas sobredimensionadas.