1. A infância, a fantasia, as fábulas e as histórias de encantar
António Vasconcelos Lapa refere com frequência a importância das vivências da sua infância, na escolha de algo que se afigurava como uma certeza de futuro. Desde cedo descobre, no ateliê do pai (Manuel Lapa, 1914-1979), o prazer de criar e materializar as figuras que povoavam os seus sonhos. O desenho, a pintura e a modelação eram o divertimento de eleição, e a satisfação de tocar e transformar o barro jamais o abandonariam — “no ateliê brincava, divertia-me imenso, mas também era ali que aprendia, sendo as mãos essenciais no processo de descoberta e invenção” (Lapa, 2012). A infância, segundo este autor, foi um período muito feliz da sua vida. Lia muitas histórias, inventava outras e vivia, através de pequenas dramatizações, as emoções dos personagens. O fascínio de criança pela fantasia das fábulas e das histórias de encantar manter-se-ia no seu espírito, e o seu imaginário, impregnado por este mundo onírico, repercute-se nas suas obras. Os projetos Alice no País das Maravilhas (1997) e Fábulas de La Fontaine (1999) exemplificam o apego de António V. Lapa por estas narrativas. Nestas representações o autor apropria-se do texto, enquanto referência, e traduz alguns momentos em quadros que corporalizam o texto literário (Figura 1) — esta materialização, apesar de suspender a ação em diferentes tempos sequenciais, faz um apelo ao espectador para participar na leitura, para reinterpretar e estabelecer relações entre a obra escrita e o objeto artístico. As técnicas utilizadas, no desenvolvimento
131 Revista Gama, Estudos Artísticos. ISSN 2182-8539, e-ISSN 2182-8725. Vol. 1 (1): pp. 130-136.
representado em obra pública (por exemplo os azulejos da companhia de Seguros Império, Largo Rafael Bordalo Pinheiro, Lisboa) e em coleções privadas de Portugal, França, Holanda Itália, Alemanha, Espanha, EUA, entre outros. António Vasconcelos Lapa é um autor que encontra na cerâmica um domínio de criação visual que possibilita exteriorizar uma iconografia interior desenvolvida em torno de universos que entrecruzam real e imaginário. A natureza, a fantasia e a infância constituem áreas fundamentais para o desenvolvimento do seu reportório plástico, constituindo um dos traços característicos do seu percurso de trabalho. O autor manifesta uma proximidade afetiva por esta temática, e nela descobre fundamentos para a estruturação das suas obras, para a afirmação de um discurso plástico e para desenvolver novas propostas metodológicas e artísticas. Este artigo pretende assim dar a conhecer a importância da temática relativa à fantasia e ao imaginário das histórias infantis, enquanto território referencial para o desenvolvimento das obras de cerâmica de António Vasconcelos Lapa, e em simultâneo evidenciar a sua atividade de pesquisa e experimentação na procura de novos recursos estilísticos.