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GAMA 1

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120 Cerqueira, Fátima Nader Simões (2013) “Marilá Dardot: pintura e fotografia na construção da paisagem digital.”

O espaço restrito dos livros junto aos elementos naturais reflete a constituição alegórica dos jardins, símbolos de lugares idealizados, plenos de significados simbólicos relacionados às ideias de paraíso, fertilidade e bem-estar. Ao modo de um hortus deliciarum (Ronchetti, 2009) descrito pela literatura cortesã como espaço fechado e, permanentemente, cheio de flores e frutos enquanto metáfora de percurso para se chegar à felicidade, a obra da artista encerra o espaço poético, estético, ético e artístico formado por referências a escritores, poetas, críticos de arte, filósofos e artistas. As legendas dos livros, dos catálogos de arte, do caderno de anotação da artista e até da Bíblia Sagrada exercem o papel de circundar os limites dos jardins pictóricos e digitais, separando o que está dentro do que está fora. Os limites dos jardins não se apresentam como muros ou cercas vivas, mas por coleção de citações dos títulos das obras e dos nomes dos autores. Benjamin (2000), em “Desempacotando Minha Biblioteca: um discurso sobre o colecionador,” discorre sobre o colecionismo que não destaca o valor utilitário e funcional, mas exalta o fascínio do colecionador diante de sua própria coleção de livros, por renovar e refazer, continuamente, o mundo velho. O espaço do jardim de livros é, dessa forma, alegoria de um lugar que se faz novo e permeado pela primavera congelada pela fotografia. Essa estratégia nos permite visualizar o acordo entre pintura e paisagem: esse é o lugar ideal de diálogo da história da pintura que permanece, mas é revista pela fotografia. Ao modo de um pequeno paraíso ao alcance das mãos e do olhar do espectador, a artista não configura o jardim do Éden, mas cria o espaço metafórico onde florescem cores, obras e autores na construção de um locus amoenus, lugar das delícias propício aos encontros entre os diversos pensamentos e obras dos autores e artistas apresentados. Entre os autores legendados, alguns aparecem mais reiteradamente (Deleuze, Guattari, Ítalo Calvino, Julio Cortázar, Fernando Pessoa, Sophie Calle) do que outros (Benjamin, Eco, Foucault, Derrida, Barthes, Rousseau, Sartre, Octavio Paz, Bataille, James Joyce, Flaubert, Nietzsche, Borges, Drummond, Guimarães Rosa, Flaubert, Monteiro Lobato, Cyro dos Anjos, Manoel de Barros, Gabriela Albergaria, Waltércio Caldas, Tunga, Yoko Ono, Lygia Clark e Hélio Oiticica, entre muitos. Os efeitos de repetitividade também configuram o alinhamento geométrico dos espaços regulares e as cores mescladas por tonalidades. Calabrese (1987: 41) cita a “estética da repetição,” próxima às noções de serialidade, acumulação e fragmentação que, em pequenas porções, integram uma rede articulada de modelos, sem hierarquia. Na obra da artista, a recorrência a ideias, pensamentos e conceitos. Nessa produção de citações autorais, a leitura silenciosa do espectador é comprometida enquanto “tempo gasto” (Certeau, 1998), tornando a paisagem um texto,


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