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GAMA 1

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118 Cerqueira, Fátima Nader Simões (2013) “Marilá Dardot: pintura e fotografia na construção da paisagem digital.”

parágrafos de espaçamentos alinhados à direita. O título da obra repete-se inserido em cada nicho superior das cinco colunas, com letras serifadas em caixa alta, enquanto abaixo das unidades fotográficas, índices das obras literárias compõem as legendas dos jardins tonais por ordem expositiva, dentre as quais foram utilizadas fontes sem serifa e em caixa alta (Figura 2). A aparência visual do “jardim” é fornecida por tons de amarelos, laranjas, vermelhos, carmins, azuis, verdes, violetas, lilases e brancos, separadamente. O tratado figurativizado pela escala de valores, sombreamentos, luminosidades e qualidades cromáticas estabelecem a discussão da pintura sem pincéis, mas pensada hoje, em meios tecnológicos, ao utilizar a impressão em jato de tinta sobre papel, valorizando a captura da imagem pela tecnologia digital computadorizada. Na intitulação da obra, percebe-se que pela pintura pode-se chegar à paisagem, por meio de um tratado. Do latim tractatus, o tratado designa um acordo, convenção ou discussão de forma didática (Houaiss, 2009). No século XV, Alberti (1989) escreveu um tratado sobre a representação pictórica. O quadro como encenação tinha uma figura de ligação que, ao voltar-se em pose ao público estaria convidando, de certo modo, o espectador a observar a cena pictórica. A intermediação com o espectador é, na obra da artista, fornecida pelas legendas dos livros que cada fotografia apresenta, isoladamente: as mesmas são elos que aproximam, fisicamente, o espectador da obra pela experiência da leitura, experiência estética de ver e ler a paisagem descrita pela coletânea de autores que, juntos, compartilham dessa construção poética de um mundo de pensamentos figurados em um jardim. Todavia, foi Leonardo da Vinci (2000) quem observou, em “Tratado da Pintura e da Paisagem: Sombra e Luz,” que o branco é somatória e potência receptiva de todas as cores e as regiões de sombra são proporcionais às somas das regiões iluminadas, equiparando a obscuridade ao esplendor luminoso. Para Leonardo, a arte é uma atividade mental, evidenciada pela experimentação e pela observação científica da natureza, sendo esse um processo de conhecimento que sustenta a pintura. A pintura, considerada imitadora da natureza, pois nela, tudo o que for sombra e luz, é passível de ser tingido: segundo o artista, “a pintura é poesia que se vê e não se ouve, e a poesia é pintura que se ouve e não se vê.” (2000:63-64). Ou seja, sendo “poesia muda,” a pintura parece ter seu complemento na poesia cega. “Tratado de pintura e paisagem,” de Dardot, aparenta desejar unir poesia, literatura, filosofia e arte, criando uma paisagem — o jardim, tão próximo à dimensão e ao esquema corporal do homem, diferenciada dos sistemas perspécticos e das vistas distantes (Cauquelin, 2007). Trata-se então, de evocar uma noção ocidental e cultural, referenciando uma proposta estética surgida no século XV.


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