110 Hupe, Ana Luiza Ferreira (2013) “Homenagem como processo.”
juntar partículas, é assim que o capitalismo de sobre-produção funciona, vende serviços e compra ações, junta peças de produtos acabados, favorecendo uma enorme dispersão, que se espelha nos corpos dos indivíduos, encarregados de gerir, administrar a si mesmos. O ajuntamento de partes está nos mini fotogramas que juntos compõem uma narrativa. Todo o sufocamento, a opressão de um poder soberano sobre o indivíduo estão presentes na confusão que percebemos na figura que se esqueceu de desligar o botão de escovar os dentes e terminou engolido pela pasta: dispersão generalizada, consertada pela sociedade do controle com neuropastilhas como a ritalina, usada largamente nas escolas para que as crianças, estimuladas por um modelo de vida fragmentário, consigam prestar atenção ao antigo e desinteressante paradigma do professor falando frente ao quadro negro. A arte de Lenora reflete o estado mental do mundo. O poder espalhado se coloca diante dos indivíduos diariamente de forma imposta e camuflada ao mesmo tempo. Enquanto um outdoor em cores vibrantes com uma mulher seminua impõe o gosto pela cerveja da marca tal, chega um email informando que você foi exclusivamente selecionado para participar de um programa de TV. Você não vê TV, mas acabou tomado pela internet, que te acompanha no ônibus. Pelo menos o aplicativo de trocar mensagens instantâneas é grátis. A que preço? O aplicativo já surge no ostracismo, no desejo de mudança. O inimigo não desapareceu, está em toda parte. Dizem (Foucault, Deleuze e seus contemporâneos, Antonio Negri, Paul Rabinow, Nikolas Rose, Michael Hardt, Giorgio Agamben...) que a Família, a Igreja, a Escola, a Fábrica desapareceram, ao menos não apresentam regimes mais tão rígidos. Em troca de quê? De uma prisão dentro de casa, na praia, no mato, no domingo. Na sociedade do feedback, é muito mais difícil fugir, te esperam com mais verocidade, te esperam logo, em toda esquina, vá de pijamas à padaria para ver o que se ouvirá por aí, no seu mural digital mais próximo. Ser livre hoje não é mais ter participação na direção política da polis, como coloca Roberto Espósito no texto Filosofia e biopolítica, de 2010. É livre aquele que consegue mover-se sem temer por sua vida e por seus bens. Homenagem... foi feita em 1975 e repetida em 1990, com a diferença de tamanho dos fotogramas, maiores em 1990, indicando um aumento do controle, da opressão sobre os corpos. 2. A escolha de Lenora de Barros como homenageada ou conclusão
Lenora homenageia Segal e eu homenageio Lenora. Em Homenagem... as fotos-poema, tratam da letargia que pode se sobrepor a qualquer ação cotidiana, falam do risco de sermos engolidos pelo automatismo do dia a dia. Com sarcasmo, ironia, humor, elementos constitutivos de sua poética. A artista mesma,