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GAMA 1

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prosaico do escovar e a última é a artista engolida pela pasta de dentes, toda encoberta. Feita quando Lenora era ainda estudante de arte, a fotoperformance num primeiro olhar é a interpretação que qualquer um faz da obra do artista norte-americano: a alienação do indivíduo na contemporaneidade. O que parece tirar o sentido ingênuo dessa interpretação a priori, o que introduz uma dimensão de antagonismo ao trabalho é a presença da própria artista sob a pasta. Em certa medida, Lenora vai além de Segal quando coloca o corpo na ação, submetendo-o perversamente ao mundo. Exposição de si, experimentação de si.

Hupe, Ana Luiza Ferreira (2013) “Homenagem como processo.”

1. Lenora e Segal

O título Homenagem a George Segal deixa claro que é um trabalho inspirado neste artista, uma espécie de declaração afetiva. Homenagem com brechas misteriosas que cabe especularmos. A escolha de Lenora pelo uso da pasta de dente de cor branca pode ser uma referência ao gesso branco que Segal usava em muitas esculturas, feitas com gazes de farmácia molhadas no gesso e colocadas sobre o corpos de seus mais próximos amigos ou familiares. É um material maleável, flexível que depois de seco enrijece. Perfeito para capturar o corpo humano em tamanho real. O processo de Segal é encobrir os corpos pouco a pouco com os pedaços de gaze até que ele esteja todo preenchido. O gesso seca sobre a gaze, endurece o suficiente para ser retirado do corpo. Moldado, o gesso vira corpo ele mesmo, corpo oco, representação do real, índice do mundo. A pasta de dente de Lenora encobre o rosto da artista através do mesmo processo, parte a parte; um pouco de pasta, um pouco mais, até que não se veja mais rosto, somente uma espuma branca. A aparência de ambas as obras pode ser muito semelhante: corpo branco. Mas os corpos de Segal não são dele, são de outros e impalpáveis, nem mesmo corpos são, senão lembrança de um corpo extinto, rastro. A escultura performática de Lenora é viva, ela mesma torna-se um monte de pasta de dente preenchido com pele e osso que não vemos, mas sabemos. A sociedade de controle, termo usado por Deleuze, é orientada por variações, por mecanismos de controle que parecem flutuantes, como a nossa moeda, já que estão por toda parte, mas são ao mesmo tempo invisíveis. Esta sociedade é retratada em Homenagem a Segal. Nossas raízes ainda são da sociedade disciplinar — aquela dos meios de confinamento rigidamente definidos, como a igreja, a escola, a família — e encontramos grande dificuldade em lidar com a exigência de produtividade que não deixa tempo ocioso para reflexão sobre nossos próprios modos de existência e as engrenagens que a regem. Engrenagem nem é uma palavra adequada, já que remete a um padrão analógico, mecânico, diferente da maneira digitalizada que vivemos. A ordem do dia é executar,


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