107 Revista Gama, Estudos Artísticos. ISSN 2182-8539, e-ISSN 2182-8725. Vol. 1 (1): pp. 106-111.
NADA de subjetividade trabalhada, só as que produziremos pelo caminho ao ver um escaravelho de cachoeira, essas novidades. Fazer como aquele artista coreano de Nova York que todo mundo comenta quando quer falar de um trabalho radical e que ninguém sabe dizer o nome. Ele deve ter notado essa lacuna; criou um codinome mais universal que consegui decorar, Sam Hsieh. Anotei no urgent notes do celular para nunca mais me esquecer, tantas as vezes que já o usei como exemplo. Sam Hsieh [Na wikipedia: Tehching Hsieh]. fazia performances de longa duração, passou um ano morando na rua em Nova York, com a auto-imposição de não poder entrar em nenhum lugar, seja inverno, seja verão (Outdoor Piece, 1981-1982). Em outro ano, amarrou-se a sua namorada com uma corda de dois metros (Rope Piece, 1983-1984), permaneceriam atados, seja banheiro, seja dormir, siameses. Numa dessas, passou um ano sem falar sobre arte, sem ir a nenhuma galeria ou museu, sem ler ou ver nada de arte (No art piece, 1985-1986). Nosso No art piece não dura nem dois dias: um trapinho de pano listrado que por alguma razão está pendurado numa mangueira enorme nos acomete no meio da trilha. Comentamos: “— Daniel Buren passou por aqui!” Mais para frente, mesma trilha, uma casa simples abandonada, construção de pau a pique. Pelas janelas vemos folhas, traças e montes de terra que formam casas de bichos desconhecidos. Pensamos numa boa foto de Luiza Baldan, mas não falamos sobre, estamos no nosso pequeno, não tão asiaticamente disciplinado, porém ainda No art piece, sigamos adiante sem imácula-lo. Túneis de formigas atravessando de um tufo de grama a outro pelo chão de pedra. Observamos que elas carregam pedaços de folha com o tamanho triplicado ao de seus corpos. É inevitável, as reconhecemos, são personagens do vídeo Quarta-feira de cinzas, de Cao Guimarães e Rivane Neuenschwander, que levam os confetes coloridos para suas casas debaixo da terra. Usamos o mundo como o encontramos, instalando nossa bagagem na natureza, coisas que os artistas nos ajudaram a construir. Percebemos que não somos só nós que vivemos assim, com artistas espectrais circulando o nosso corpo-casa. Muitos outros cuidam de seus anteriores um tanto e chegam a superá-los em algum lugar, superação que não significa ser melhor nem pior, é um olhar mais largo talvez, um artista servindo de degrau a outro. Lenora de Barros, artista brasileira atuante desde a década de 1970, compõe poemas visuais, narrativas por imagens, performances feitas para câmera com o pensamento de começo, meio, fim. Lenora mistura meios — a escrita, a poesia, a fotografia, o vídeo, a performance e homenageia outros artistas como forma de descobrir o seu próprio trabalho. Em Homenagem a George Segal (1975), faz uma sequencia de imagens do ato de escovar os dentes. A primeira é o ato