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ESTÚDIO 7

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As miúdas do Pixiv

Em comunidades artísticas online como o Pixiv, é possível sentir as repercussões do movimento nipónico Superflat ou Neo Pop (encabeçado por figuras como Murakami Takashi ou Nara Yoshitomo), no trabalho de uma nova geração de jovens artistas nascidas entre meados dos anos 80 e 90. Agregadas nesta plataforma virtual, que, pela sua estrutura operante, não faz uma distinção hierárquica entre arte original e fan art (imagens criadas, por fãs, a partir de personagens pré-existentes), ou ilustração em estilo mainstream e trabalhos desconstrutivos (Figuras 2 e 3), as “miúdas” estão perfeitamente integradas num ethos pós-moderno, típico do super flatism, de achatamento da distância entre Arte e low brow. Sintomaticamente, a sua gramática visual é fortemente ancorada no cânone de representação derivado do manga e do anime, mas distorcido através de uma lente psíquica que reflecte tensões e atribulações próprias de cada autora. Transversal a estas artistas é, ainda, a apropriação do idioma kawaii (“cute”), que serve de “veículo artístico inesperado para emoções sombrias e complexas” (Vartanian, 2005: 7). Apesar da cuteness remeter, necessariamente, para um imaginário infantil e inocente, o conceito japonês de kawaii evoca, não só

79 Revista :Estúdio, Artistas sobre outras Obras. ISSN 1647-6158, e-ISSN 1647-7316. Vol. 4 (7): pp. 77-91.

ocidental, em particular nas gerações mais novas. Esta migração está na origem da formação, no século XXI, de uma juventude ocidental japonizada (Kinsella: 1998) (na qual, enquanto consumidora e criadora, me incluo), levantando questões sobre os mecanismos de exílio cultural, e a(s) identidade(s) contraditória(s) a que deles advêm. Ademais, com o aparecimento de sites japoneses como o Pixiv (ピクシブ) (Figura 1), em 2007 — uma comunidade online onde artistas e ilustradores expõem o seu trabalho, com mais de 5 milhões de utilizadores registados — e, concomitantemente, de ferramentas de tradução instantânea como o Google Translate (que permitem, mesmo não lendo japonês, navegar dentro de páginas escritas na língua nipónica), tornou-se possível entrar em contacto directo, em tempo real e sem recurso à mediação institucional, com um tipo de produção artística grassroot, praticada por jovens nipónicos. Trata-se de uma subcultura, ligada à desconstrução do idioma mediático da BD e animação japonesas — e, em particular, das suas representações de cuteness — sob a forma de desenho, pintura, arte digital, escultura/objectos e manga underground. O que me proponho realizar, nesta comunicação, é um breve roteiro pela obra de algumas “miúdas do Pixiv” (que, dada a juventude das criadoras, é ainda relativamente escassa e desconhecida), com a qual — enquanto autora no lado oposto do planeta —, sinto maior afinidade em termos de postura criativa. Mesmo que algo esteja sempre, inevitavelmente, lost in translation.


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