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ESTÚDIO 7

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Revista :Estúdio, Artistas sobre outras Obras. ISSN 1647-6158, e-ISSN 1647-7316. Vol. 4 (7): pp. 232-236.

a sua apresentação. Para algumas disciplinas das artes visuais como, por exemplo, a fotografia, a pintura e o desenho, existem soluções padrão que usualmente implicam uma parede de sustentação que facilita uma relação verticalizada, frente a frente e nivelada pela altura do olhar de um observador tipificado numa convenção (ou seja, o centro da obra é posicionado a 1.5 metros de altura em relação ao chão). Mas, para o artista no seu processo criativo, a exibição/apresentação da sua obra nem sempre é uma questão que se coloca à partida, ou que esteja presente no momento próprio da sua concepção. Justamente, algumas obras nascem dentro da condição de fragmento; são esboços de ordem experimental e/ou projectual sem a ambição do factum est que a exposição determina. No horizonte de expectativa do próprio artista/autor, estes registos são ensaios, hipóteses de trabalho (no futuro), apontamentos que iniciam qualquer coisa (são germinais) ou vão a caminho de alguma coisa (perseguem um astro), informados em ideias, em histórias, em factos, em interesses. Estas primeiras manifestações são o princípio de um modus operandi e o seu carácter é inconclusivo e afasta-se do factum est exigido na apresentação expositiva. Contudo, documentam um processo imprescindivel: a passagem do pensamento ao acto, da potência à concretude. É nesta passagem germinal que se pode pensar a obra Prolegómenos para uma re-escrita de uma partitura de Filipe Pires onde o pintor Jorge Pinheiro traduz para o desenho, simultaneamente, a audição da música Transfigurations e visualidade da partitura. “Traduz”, na medida em relaciona regimes semióticos distintos a partir do desenho, no sentido da sua visualidade plástica e expressiva, e como escrita musical, que implica uma sonoridade e uma relação com a linguagem da música. A disciplina do desenho permite dois tipos de abordagem: uma, que se faz a partir da observação, que mima o real; e outra, que expõe um pensamento, que regista um processo mental, que projecta uma ideia, que arquiva um imaginário. Estes dois grandes campos resumem uma prática artística que se concretiza no gesto gráfico. Prolegómenos... situa-se no limiar que separa estes dois campos. Se, por um lado, se trata do registo ideias, por outro lado, sustenta-se na audição da obra musical que lhe dá título e na observação directa da sua partitura. São uma reelaboração de carácter sinestésico cujas formas gráficas são suscitadas, simultaneamente, com a análise empírica da partitura olhada como um desenho e também como uma escrita, revém de uma escuta e de uma inteligibilidade mas também de uma observação e de uma análise do visível. As sete páginas que resultam desta observação/audição são reveladoras deste processo, como um esforço de passagem, numa ficção de sinestesias visuais e auditivas.

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1. Um dos problemas de expor uma obra é saber qual a forma adequada para


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