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ESTÚDIO 7

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184 Coimbra, Prudência Antão (2013) “Jorge Vieira, jogos antropomórficos como imagem de transmutação.” Revista :Estúdio, Artistas sobre outras Obras. ISSN 1647-6158, e-ISSN 1647-7316. Vol. 4 (7): pp. 178-184.

conceito de homem. Um corpo “retalhado” é um cadáver, perde a qualidade de ser que lhe é dado pela vida. No entanto, estas figuras não são ainda cadáveres pois, ‘retalhadas, fragmentadas, divididas [estão] todavia inteiras’ (Listopad, 1981). Esclarecendo essa impossibilidade de ser ser, recorre-se agora às palavras de Jean Paul Sartre, que comenta, exactamente a capacidade de Giacometti revelar a vida que há no ser, bem como em preservar e evidenciar tal unidade nos seus trabalhos: Da árvore pode-se isolar um ramo que balouça; mas do homem é impossivel isolar um braço que se levanta ou um punho que se fecha. O homem é a unidade indissolúvel e a origem absoluta dos seus próprios movimentos. Permanecendo aí, o homem é um mágico de sinais; os sinais prendem-se-lhe aos cabelos, brilham nos olhos, dançam entre os lábios, empoleiram-se na ponta dos dedos; ele fala com todo o corpo: se corre, fala; se pára, fala; se adormece, o seu sono é a palavra. […] É preciso que [o escultor] inscreva o movimento na total imobilidade, a unidade na multiplicidade infinita […]’ (Sartre, 1971: 258).

Espécie de ex-votos alguns desses trabalhos parecem reunir destroços, fragmentos que sugerem objectos encontrados. Noutros, sobretudo as decapitações, apontam para leituras de possíveis e complexas problematizações existenciais. Conclusão

Jorge Vieira, liberta-se do academismo, partindo de estratégias formais próximas das culturas primitivas e popular, integra princípios do surrealismo que o levam a considerar a figura humana como um meio de reflexão ideológica e existencial, concretizada no hibridismo e na metamorfose do corpo das figuras que constrói. Cria, desta forma, uma imagética própria e única nos meados do séc. XX em Portugal, acertando-se com a vanguarda europeia do seu tempo.

Referências Bachelard, Gaston (1967) La Poetique de l’espace. Paris: PUF, 1967. Deleuze, Gilles, (s/d) Nietzsche e a Filosofia. Lisboa: Res. p. 155- 300. Guedes, Maria Estrela (1987) “Olhar de Soslaio” in Sousa, Ernesto (eds) Itinerários. Porto: Casa de Serralves, Setembro, p.13-30. Contactar a autora: prudenciacoimbra@gmail.com

Krauss, Rosalind (1996) La originalidad de la Vanguardia y Otros Mitos. Madrid: Alianza Editorial. Listopad, Jorge (1981) (s/t)Diário de Notícias. 24 de Novembro. Rodrigues, Rogério (1981) “Jorge Vieira ‘Próximo de Rosa Ramalho’”, JL. Sartre, Jean-Paul, (1971) Situações III. Lisboa: Europa América.


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