136 Silva, António Fernando (2013) “Pedro Cabrita Reis — A Diferença da Repetição.”
um sentido originário. Os lugares que constrói têm uma depurada linguagem e a sua construção mobiliza arqueologias do quotidiano que se organizam numa tensão entre mistério e revelação, luz e sombra, obscuridade e transparência. A partir de restos constrói uma arte que busca o que é vital. O primeiro corpo que os lugares que constrói abrigam é o seu e cada obra revela sempre uma espessura e uma marca autoral que é, simultaneamente, a do construtor. Decifra o trabalho realizado no espaço, mede-o, mapeia-o, passando os objectos criados a terem uma presença, uma lógica interna, passível de transmitir um conhecimento não racionalizável e onde a marca da mão é deixada como uma abertura para uma subjectividade que se mantém secreta e misteriosa. E, assim, cada trabalho seu constitui-se menos como obra e mais como processo de descoberta e de ordenação contínua. Deste modo o seu trabalho revela uma acção de rigor e de equilíbrio, exercendo uma influência especial (…) mimetizando-se em inconsciente colectivo ou individual (Calvino, 2009) abrindo-se a novas leituras e a novas descobertas, porque sempre incompleto. Cabrita Reis transfere a questão da “assemblage” dos materiais para os processos de construção e para um discurso poético que encontra algumas das suas principais referências numa história íntima e pessoal (Hegyi e Todolí, 1999) onde é possível admitir essa qualidade que cada releitura oferece como primeira descoberta, abrindo um novo modo de ver o já olhado e, pelo sentido da composição da obra que transmuta os materiais, possibilita que a primeira leitura seja já uma releitura, por oferecer um reconhecimento, que se constitui como um rumor de continuidade no tempo. Organiza, assim, metáforas a partir de arquétipos colectivos. Daí a casa ser fulcral na sua obra. Esta é erigida como um segundo corpo a partir do qual o Homem pode situar-se no mundo. Por isso constrói unidades mínimas, lugares favoritos, em que a marca do corpo, do seu corpo, ao dar forma à construção, ao conferir-lhe uma dimensão antropométrica, incorpora também uma dimensão antropológica. Nunca as obras de Cabrita Reis se apresentam como evidências ilustrativas. Na sua natureza, ocultação e revelação caminham a par sugerindo mais que impondo. Assim, é possível descobrir o novo no conhecido e reconhecer, antes de conhecer. Contudo este reconhecimento não retira o mistério à obra, antes o adensa. O espectador é confrontado com uma estranha familiaridade e o autor expõe, assim, a possibilidade de ter um cúmplice que complete a poética ou que consiga incorporar novos modos de ver. Como o próprio afirma: