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ESTÚDIO 7

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Estranheza e conhecimento

No seu ensaio Porquê Ler os Clássicos Italo Calvino começa por afirmar que clássicos são os livros de que se costuma ouvir dizer “Estou a reler…” e nunca “Estou a ler…” (Calvino, 2009). Deste ponto de vista, o prefixo iterativo Re põe-nos na condição de ter havido já um antes e de se estar, agora, numa condição de repetição. Na coerência própria da obra de Pedro Cabrita Reis, o espectador é continuamente confrontado com objectos comuns, reconhecíveis, que se apresentam, contudo, num corpus de obra orgânico, físico e poético. Esse é, no entanto, um reconhecimento que provoca ao mesmo tempo uma estranheza. Esta tensão, produzida pela obra, entre o que se conhece e o que, simultaneamente, surge como estranho, pode constituir-se como uma possibilidade de encontro facultando dar forma às experiências futuras, fornecendo modelos, conteúdos, termos de comparação, (...) paradigmas de beleza (Calvino, 2009). É uma obra que se alimenta da matéria do mundo, sem contudo procurar uma estetização dos materiais, humildes e simples que transportam e afirmam

135 Revista :Estúdio, Artistas sobre outras Obras. ISSN 1647-6158, e-ISSN 1647-7316. Vol. 4 (7): pp. 133-138.

O contemporâneo, como um tempo que reúne todos os tempos, caracteriza-se pela acumulação e a síntese. É retrospectivo, enquanto o moderno era prospectivo (cf. Ardenne, 1997). Para Agamben o contemporâneo possui uma relação singular com o nosso próprio tempo, que a ele adere e dele se distancia em simultâneo, num jogo de coincidência que cega, ou de anacronismo que, porque se distancia, vê. Deste modo, há nesta atitude uma acção que se empreende e que falha, porque estar no ponto de fractura do tempo é o que nos possibilita estar e falhar, mas é também o lugar de um encontro e de um confronto entre os tempos e as gerações (Agamben, 2010). Pretende-se indagar uma vontade clássica na obra de PCR, que afirma recolher a informação da contemporaneidade e a emoção, do tempo todo (cf. Almeida, 2008), através de um permanente deslumbramento do olhar, um olhar filosófico, que origina um processo de conhecimento que se organiza a partir de uma dimensão poética. A sua acção, coerente e programática, assenta num léxico vasto e ecléctico de formas e de múltiplos entendimentos que recuperam um passado pré-moderno, em que se incorpora um arcaísmo e a busca de um fôlego romântico para a criação (Pinharanda, 1999). Em toda a sua obra demanda o gesto fundador que ambiciona a unidade e procura o reencontro da harmonia primordial, procurando superar o sentimento de perda através de um trabalho de construção da beleza, numa busca de uma cosmogonia própria e primordial que procura um lugar para o Homem no mundo.


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