Pelayo, Maria Raquel Nunes de Almeida e Casal (2011) “Códigos ao Limite no Desenho da Escrita – Uma abordagem criativa da obra gráfica de Ana Hatherly”
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4. As escritas figuradas de Hatherly
Obras realizadas em 1964 (Figuras 1 e 2) mostram que desde o início do seu trabalho gráfico Hatherly se ocupa desta desconstrução do signo numa busca de figuras simples, de apenas duas partes, que se caracterizam pelo seu carácter conectivo e que inicialmente se desenvolve na procura de conexões topográficas no plano do desenho. Estas experiências iniciais desenvolvem-se surgindo em diversos trabalhos seguintes proliferações de figuras, que formam um autêntico tecido, levando a conexão entre ‘neurónios gráficos,’ ao máximo como se pode observar em desenhos de 1967 e 1969 (Figuras 3 e 4). Note-se que a bidimensionalidade do desenho é afirmada pela quase total ocupação do espaço, sem qualquer sugestão explícita de profundidade. Posteriormente, surgem desenhos mais interessantes como Escrita Descendente (Figura 5). Aqui, os ‘neurónios gráficos’ exibem longas caudas disponíveis para conexão. A distribuição dos agitados grafismos no plano do desenho sugere a existência de uma inclinação do mesmo através da textura cujo grão é mais largo perto do observador e progressivamente diminui. Uma leitura alternativa, é o de uma escrita mais densa na parte superior do desenho que se desfaz caindo. A tensão que a duplicidade de tais leituras cria, resulta numa imagem muitíssimo estimulante visualmente. Desenhos posteriores (Figuras 6 e 7) apresentam grandes figuras formadas por sequências de palavras caligráficas que tecem superfícies e são, também elas, figuras mínimas. Quais figuras fantasmagóricas do ‘neurónio gráfico’ exibindo as características exibidas nos desenhos anteriores: núcleo e elementos de conexão. A caligrafia é o que molda as formas nestes desenhos, produzindo superfícies cuja tridimensionalidade resulta das variações da malha do texto que se molda à figura, moldando-a. Conclusão
Nestas aparições gráficas que são os desenhos de Hatherly e transversal a todos eles, neste interstício entre o mais puro desenho e a mais aberta caligrafia encontramos esta figura fantasmagórica insinuante que os anima, e à qual chamamos, provocadoramente de ‘neurónio gráfico.’ É pela sua estrutura, conectividade, geração de superfície e grande configuração formal que fazemos esta analogia com os neurónios, propondo que o caminho da abstracção poderá chegar ai: não ao concreto, mas à algo involuntária representação do funcionamento da própria mente. Esta parece-nos a mais intrigante vertente do trabalho de Hatherly pelo que possui de intuição e de reflexão sobre os processos cognitivos. Hatherly tem cristalina noção da íntima relação e das especificidades do desenho e escrita, as quais tentámos enquadrar nos pontos anteriores desta comunicação.