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:ESTÚDIO 3

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A impossibilidade da leitura semântica conduz ou retroage o leitor/observador para a ‘leitura’ automática do desenho que a escrita também é. Tal verifica-se tanto no caso em que os signos mantêm a sua distribuição linear típica da escrita, seja no caso em que estes formam outras configurações, como acontece na poesia visual, o que por si só também despoleta imediatamente a “leitura” dos grafismos como desenhos. Para além do uso destes processos Hatherly usa também um processo desconstrutivo dos signos que podemos considerar operante de uma ultra-abstracção já que incide sobre os grafemas, signos estes já abstractos e que caracteriza a sua obra. O que nos move na obra gráfica de Hatherly é a forma como tal redução de um código, que é por natureza abstracto, resulta na criação de uma figura mínima do desenho que chamamos aqui de “neurónio gráfico:” uma entidade gráfica que misteriosamente emerge na sua obra remetendo para a representação da própria mente criativa. O ‘neurónio gráfico’ assume-se como a figura mais básica que se pode conceber e classificar como tal em desenho, embora tenha de possuir no mínimo dois elementos, já que o traço, sinal único do desenho, não chega a poder considerar-se uma figura pela sua concreção. É figura mínima, aquela na qual seja possível discernir duas partes diferenciadas como corpo e membro ou núcleo e extensão, como os traços da escrita cuneiforme, a vírgula, ou o espermatozóide.

Revista :Estúdio. ISSN 1647-6158. Vol.2 (3): 83-89.

3. O neurónio gráfico

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o vemos é a imagem final criada pelo cérebro e não uma imagem projectada. Partindo dos padrões de luz na retina, cada estádio computacional produz uma certa representação mental, que toma como input a anterior. Daqui resulta que toda a informação 2D é uma emanação directa do input retiniano enquanto a informação sobre a profundidade é uma construção mental indirecta e complexa, só realizada num segundo estádio que procede à interpretação do espaço a partir de certas pistas 2D. Isto explica porque é que sendo o desenho 2D nós somos capazes de ‘ler’ certas pistas gráficas como profundidade. Com base na nesta teoria e usando o enquadramento psicotecnológico é possível desenvolver uma concepção de desenho que se centraliza no ‘plano do desenho.’ Define-se este plano como o lugar bidimensional de todas as representações, sendo que à dimensão externa do plano do desenho (o suporte do desenho objecto) corresponde a dimensão interna do mesmo plano (a superfície imagética criada pelo cérebro visual). Assim, a primeira dimensão do plano do desenho está na dependência da segunda, funcionando como uma prótese passível do aumento das capacidades imagéticas internas iniciais do cérebro, destacando-se o aumento exponencial da memória visual. Da natureza do desenho, análoga à percepção visual, se retira que sua única geometria é a topografia o que lhe permite organizar-se segundo as mais diversas regras ou codificações de informação, transfigurandose e permitindo os jogos entre codificações que Hatherly desenvolve.


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