Pelayo, Maria Raquel Nunes de Almeida e Casal (2011) “Códigos ao Limite no Desenho da Escrita – Uma abordagem criativa da obra gráfica de Ana Hatherly”
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1. Os desenhos da escrita do desenho
Inscrevendo-se a obra gráfica de Hatherly no campo da escrita assémica há que, antes de mais, reflectir sobre as relações entre estas duas entidades, o desenho e a escrita. As dificuldades de tal reflexão não advêm do campo da escrita ou não fora este um campo tão amplamente estudado mas sim do campo da teoria do desenho, um campo científico que se caracteriza pela sua imaturidade, tendência para o isolamento, introspecção e repetição e pela incapacidade de sustentação de um discurso crítico, embora ultimamente se verifiquem sinais de progressos (Garner, 2008). Objectando à semiologia o facto de se basear, em certa medida, na própria escrita, ou seja num dos códigos que se pretende delimitar, adoptamos o paradigma psicotecnológico, instrumento conceptual neutro que possui a vantagem de levar em consideração a sensorialidade humana, factor este que consideramos de grande importância no desenho. No enfoque psicotecnológico a comunicação é um fenómeno do homem pelo que a escrita é considerada uma tecnologia humana que dá continuidade e incrementa determinadas acções corporais humanas. No caso da escrita, ela é tida como uma tecnologia que dá continuidade ao cérebro, tomado este como complexo sistema neurológico e sensorial de interacção do homem com seu meio ambiente. Segundo McLuhan (1962) o ser humano dotado de próteses tecnológicas como a escrita alarga o seu conhecimento, e domínio sobre o mundo, porque as tecnologias aumentam a sua sensorialidade, o alcance dos seus sentidos. A escrita alfabética resulta do casamento do desenho com a oralidade, autonomizando-se do desenho por via de um desenvolvimento abstractizante e codificante funcionando em termos de dissociação analítica, enquanto o desenho sempre opera em termos de sínteses inclusivas, (ou gestalt inclusiva). De facto, se a escrita separa, o desenho agrega, e se a escrita retira seu significado do signo já o desenho o coloca na posição e localização relativas entre os traços numa dada superfície. No desenho não há signos, já que o desenho é sim produtor de figuras, figuras estas que se quisermos podem ser lidas como signos no contexto de um código e tal é o caso da escrita. O desenho não é uma linguagem como a escrita, mas sim o dispositivo matricial de todas as linguagens humanas e que segundo Sheridan (2002) poderá ter desempenhado um papel relevante no próprio desenvolvimento da oralidade. 2. Percepcionar = representar = desenhar
Nos anos oitenta David Marr (1982) propôs uma teoria que alterou a forma como concebemos a visão, a teoria computacional ou representacional da visão, e enunciou o paradigma hoje aceite pela comunidade científica para o funcionamento neurológico da visão. Marr concebe a visão, como uma sucessão de computações independentes entre si e como representações mentais, sendo que