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:ESTÚDIO 3

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74 Maio, Fernanda (2011) “Interrupção” Revista :Estúdio. ISSN 1647-6158. Vol.2 (3): 74-75.

Interrupção Break Fernanda Maio conselho editorial

O processo criativo é feito de descontinuidades, interrupções e recomeços. A ausência preside muitas vezes à concepção da obra, porque através dela a presença é reforçada. O vazio é ponto de partida para a criação e procurado sobretudo como expansão infinita do espaço; lugar que queremos alcançar, ponto de chegada. Parar, ou romper, o contínuo, o fluxo, a ordem, a realidade é o que faz a arte. A arte interrompe, irrompe, interroga e arresta. Os textos que compõem esta secção falam desta capacidade, auscultando as diferentes formas como a arte cria significação a partir da deriva e do inacabado, dos espaços intersticiais do desenho, de proposições dinâmicas poéticas, de alegorias de transitoriedade e degradação, de obras efémeras e míticas, e da capacidade evocativa da matéria mesmo quando se busca o vazio. Cristiana Gomes aborda o conceito de livro de artista no campo expandido que a obra “Rasura” de Edith Derdyk constrói . O espaço é a tela em branco onde a escrita retorna à sua origem icónica. Entre o equilíbrio e a deriva, aproximação e recuo, a escrita é desconstruída e ‘des-informada’ dando espaço ao inacabado e ao informe. É no caos destes ‘rabiscos’ no espaço, no carácter inacabado da obra, que o desenho funda as suas infinitas possibilidades. Da mesma relação íntima entre escrita e desenho trata Raquel Pelayo que, numa escrita centrada na obra gráfica de Ana Hatherly, propõe uma aproximação à unidade mínima do desenho – o ‘neurónio gráfico’ – para compreendermos que o desenho, não sendo uma linguagem como a escrita, mas precedendo-a, é efectivamente o “dispositivo matricial de todas as linguagens humanas.” O uso da linguagem escrita como médium artístico – alegadamente como aproximação da arte à vida, mas constituindo sobretudo uma estratégia de diferenciação do quotidiano -, é analisada por Michel da Rocha a partir da ‘arte classificada’ de Paulo Bruscky. Buscando a circulação alternativa proporcionada pelos media impressos, através da colocação de anúncios, o artista lograva a interrupção do real por meio de proposições dinâmicas que estabeleciam um diálogo poético entre arte e ciência. De um outro tipo de descontinuidade fala o texto de Marta Negre Busó ao


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