No ano de 1927, quando Hugo Adami volta de sua primeira viagem à Europa, o Brasil estava às vésperas de grandes mudanças políticas, pois passaria de uma orientação econômica oligárquica e agrária para outra, urbana e industrial. São Paulo tornava-se um grande polo econômico no país, tendo sua indústria e população crescido muito durante as primeiras décadas do século XX, tornando-se um dos maiores centros econômicos brasileiros e palco de transformações culturais. Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral já haviam desenvolvido o movimento Pau Brasil, que apresentou um novo direcionamento para o Modernismo brasileiro: redimensionar o Modernismo local para a criação de uma arte moderna nacional. Não bastava mais romper com a arte realista de cunho burguês, existente na época, e atualizar a inteligência brasileira; ser moderno no Brasil era buscar e caracterizar sua própria identidade em relação ao mundo ocidental. Mário de Andrade tinha como objetivo criar uma identidade brasileira e assim dar feição ao Modernismo, na literatura e nas artes plásticas. Segundo o historiador Tadeu Chiarelli, Andrade seria o crítico a tornar clara essa empreitada modernista. Para tanto, o Modernismo paulistano não poderia aderir simplesmente às correntes mais radicais das vanguardas européias – que negavam a noção vigente de arte como representação da realidade exterior – pois tal adesão impossibilitaria que os modernistas, no campo das artes plásticas, construíssem uma iconografia brasileira (Chiarelli ap. Fabris, 1994: 62). Assim, impossibilitados de aderir totalmente à linguagem das vanguardas históricas européias, ou de continuar arraigados à uma representação estritamente verossível da natureza, os modernistas tiveram como única opção abraçar as tendências realistas não passadistas do Retorno à Ordem, que dominaram a Europa, a partir do final da Primeira Guerra Mundial. 2. Mário de Andrade e a exposição de Adami, em 1928
Para orientar seus ideais modernistas no Brasil, Andrade escolheu os elementos das correntes de Retorno à Ordem condensados sobretudo nas teorias puristas de Jeanneret e Ozenfant, veiculadas na revista L’Esprit Nouveau (Chiarelli, 1996: 30). Os puristas acreditavam que a pintura era boa quando as qualidades de seus elementos plásticos superavam suas possibilidades de representação ou
Revista :Estúdio. ISSN 1647-6158. Vol.2 (3): 68-72.
1. Sobre o Modernismo em São Paulo
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tações que envolviam arte moderna, como exposições, salões, um filme e uma peça de teatro. Teve alguns de seus trabalhos exibidos em duas edições da Bienal de Veneza, em 1924 e 1930, e no Salon Des Tuileries, em 1932. De volta ao Brasil, em 1940, participou do juri de vários Salões de Arte, sempre em prol dos artistas modernos, e já dizia não compreender a arte não figurativa e experimental, que começava a aparecer no Brasil, no final daquela década.