Assis, Ana Cláudia de (2011) “Fernando Lopes-Graça: Espelho de um Tempo”
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Reflectindo (n)os sons
Tomando como exemplo o Nocturno III (1959) para piano, interessa-nos demonstrar como o compositor conciliou referências da música popular com referências da música expressionista. Antes, lembremos que o expressionismo em música está associado à ruptura com o tonalismo, ao uso sistemático das dissonâncias, e ao abandono das formas discursivas consolidadas na tradição da música clássico-romântica. A peça é construída sobre intervalos de 5ª, 4ª e 2ª gerando certa ambiguidade sob o ponto de vista harmónico e principalmente de seu idioma (tonal, modal ou atonal). A preferência por tais intervalos é explicitada pelo próprio compositor: A canção portuguesa (…) é, vocalmente, de curto âmbito tonal? Pois bem: alarguemos, variemos, coloramos (…). A harmonia moderna oferece-nos bastos recursos para o fazer. E que mal há nisso? Qual mal há em aplicar acordes formados por quintas ou quartas (…)? (Lopes-Graça ap. Weffort, 2006: 127). Os intervalos de 2ª, por sua vez, criam um colorido cromático dissonante típico da música atonal e expressionista, que além de acentuar ainda mais a instabilidade harmônica, é responsável por imprimir certo grau de aspereza sonora. Embora não haja aqui referência direta à ‘canção portuguesa,’ o contorno rítmico-melódico em vaivém, visualmente representado no excerto da partitura, insinua o movimento monótono e repetitivo de certos gêneros do populário musical como as canções de embalar. Tal movimento apoia-se na reiteração dos intervalos de 5ª gerados a partir do fá# (fá#-si↓ e fá#-dó#↑) fixando, na escuta, pontos de referência que evoca circularidade e, ao mesmo tempo, estaticidade. Um movimento redundante que não evolui e que gira em torno de si como um “embalo” mas também como lamento, pranto ou (des)esperança, sensações com as quais o compositor conviveu não apenas em decorrência das perseguições políticas, mas também pela sua própria personalidade amargurada e deprimida que culminou, certa vez, em tentativa de suicídio. Na obra Intróito aos “Pobres” de Raul Brandão (1967), para declamação e piano, Lopes-Graça apresenta um dos grandes exemplos do seu expressionismo. Ainda baseada nos intervalos de 5ª, 4ª e 2ª e na reiteração de um motivo melódico de caráter também lamentoso, quase uma ladaínha, seu resultado sonoro é muito mais dramático. A diferença está no tratamento textural, nas variações de andamento e na relação tensão-afrouxamento que adquire maior dramaticidade ao fundir-se com as imagens de movimentos evocadas pelo texto de Raul Brandão. Lopes-Graça, apesar de negar a manipulação de emoções no plano musical, apresenta uma escrita temperada por arquétipos retórico-musicais que reflectem sua imagem fatalisada da realidade: “quando se ouve uma obra de Lopes-