Reflectindo o expressionismo dramático e os sons nacionais
Ao extrair a energia expressiva e transgressiva da música popular como recurso poético, Lopes-Graça parece tentar conciliar duas vertentes estéticas tradicionalmente distintas: a música ‘rústica’ e o expressionismo ou, como esclarece o compositor, um “expressionismo dramático mais ou menos atonal” (Lopes-Graça, 1978: 141). No que tange à percepção, a música expressionista traz-nos a experiência da tensão e da fatalidade, do drama e do conflito, do pessimismo e do estranhamento (Adorno, 1974), daí, certamente, o incómodo do ‘bom burguês sentado na platéia.’ Devemos salientar que o termo conciliar não significa, em nossa análise, apaziguar as diferenças ou eliminar os conflitos, ao contrário, conciliar pressupõe colocar em perspectiva as diferenças e articulá-las de forma crítica.
Revista :Estúdio. ISSN 1647-6158. Vol.2 (3): 57-62.
(…) quando ouvimos Malhão [para orquestra, de 1941] percebemos que há ali uma alegria popular que é ameaçadora. Há qualquer coisa de transgressivo nessa alegria, algo que incomoda ou pode incomodar o bom burguês sentado na platéia. Não se trata de explorar efeitos grandiosos, de fazer coisas bonitas ou agradáveis com esse material popular, mas sim de procurar o que nele há de energia expressiva e, muitas vezes, também energia transgressiva (Carvalho, 2006: 120).
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Em Portugal da primeira metade do século XX, assim como na maioria dos países que viveram sob o regime de ditadura, a estética musical predominante foi o Nacionalismo. Liderada por nomes como José Vianna da Mota (18681948) e Luís de Freitas Branco (1890-1955), a música nacionalista portuguesa inseria-se num processo histórico mundial que culminou na Europa a partir do movimento pré-romântico conhecido como Sturm und Drang, com repercussão e desdobramentos mundiais. Contrário à música nacionalista ‘oficial’ praticada pelos seus colegas, mas apologista de um nacionalismo ‘essencial’ influenciado pela noção neo-realista de ‘redescobrimento’ do povo, após sua volta de Paris, em 1939, Lopes-Graça iniciou um intenso trabalho de recolha e pesquisa da música popular portuguesa: “É claro que quando falo em música popular me refiro à música rústica, à música anônima cantada e dançada pela gente dos nossos campos e aldeias” (Lopes-Graça, 1947: 51). O material recolhido era utilizado em suas composições, seja de forma literal como em alguns ciclos de canções ou nas harmonizações para coro, seja de forma ‘transfigurada’ como em algumas obras instrumentais. Embora a atitude de apropriação do material popular aproximasse LopesGraça da rotina nacionalista, o resultado musical parecia divergir: