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58 Assis, Ana Cláudia de (2011) “Fernando Lopes-Graça: Espelho de um Tempo”

entre a ‘acção vivida e a acção imaginada’ (Lopes-Graça in Carvalho, 2006: 128). Partindo, portanto, do pressuposto de que a música de Lopes-Graça foi um espelho através do qual o compositor interpretou criticamente uma realidade marcada pelo policiamento do espírito, o presente artigo tem por objectivo trazer à luz a estratégia desenvolvida por ele durante os anos 1940 a 1970, para exprimir e tentar intervir na sociedade de seu tempo. Além de partituras e gravações, textos originais de Lopes-Graça constituem parte do corpus documental deste trabalho. Reflexos de sombra e luz

Compositor, pianista e ensaísta, Fernando Lopes-Graça nasceu em Tomar a 17 de Dezembro de 1906. Naquela cidade iniciou seus estudos musicais e, posteriormente, em 1923 ingressou no Conservatório Nacional de Lisboa para aperfeiçoar sua formação como pianista, onde também deu início à sua carreira como compositor. Data de 1927 seu Opus 1, Variações sobre um tema popular português, e desde então compôs cerca de 250 obras para formações instrumentais e vocais distintas. Sua trajectória composicional foi marcada pela convivência pouco harmoniosa entre as actividades enquanto membro do Partido Comunista e as acções anti-democráticas do Estado Novo, acarretando consequências profissionais e emocionais graves, entre as quais a impossibilidade de usufruir uma bolsa de estudo em Paris (1934); a prisão na cadeia de Caxias por 224 dias (1936); e a cassação do diploma de professor do ensino particular (1954). Grande parte de sua obra só foi livremente veiculada e ouvida após a revolução de 25 de Abril de 1974. Embora as dificuldades enfrentadas para apresentá-las no circuito musical oficializado pelo Estado Novo decorressem, como é óbvio, de sua condição enquanto activista político, em nossa análise, a estética do compositor foi também factor decisivo. Como veremos, sua música reflectia em sons a multiplicidade estética e cultural de seu tempo. Multiplicidade que pressupõe heterogeneidade de pensamento, de credo e de opinião política o que, naquele contexto, representava uma ameaça à ideologia hegemónica que se pretendia conservar. Contudo, entre 1937 e 1939 o compositor mudou-se para Paris para estudar Composição com Charles Koechlin e Musicologia com Paul-Marie Masson. Durante sua vida publicou centenas de textos em periódicos portugueses (Vértice, Seara Nova, A Gazeta Musical e de Todas as Artes) relativos à crítica de arte, à teoria musical e à história da música. A maioria destes textos foi reunida e transformada em livros, dentre os quais A Música Portuguesa e os seus Problemas (1973-1989), Reflexões sobre a Música (1978), A Canção Popular Portuguesa (1953). Meses antes de sua morte, em 27 de novembro de 1994, doou todo seu espólio ao Museu da Música Portuguesa.


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