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:ESTÚDIO 3

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48 Latka, Joanna (2011) “A poesia da matéria orgânica na gravura de Ilda Reis”

Sem dúvida a característica fundamental da gravura de Ilda Reis, além da textura é a cor, que “é originada neste combate metafórico praticado para o devir a imagem” (Azevedo, 1988, s.p.). A artista certamente manipulava com os pigmentos e aplicava tintas líquidas ou mais espessas na ordem de uso dos rolos (modo de tintagem S. Hayter, 1949), abrindo assim todas as possibilidades que este sistema proporciona para usar três ou quatro (se não mais) pigmentos na mesma matriz, permitindo que a artista conseguisse chegar: (a) cor terrível e bela do sangue ou da claridade abissal: mesmo seja o verde, mesmo que seja o azul, quer seja o violeta, esta a cor da sombra, do crepúsculo e da amenidade (Azevedo, 1988, s.p.). Contudo, a artista para distinguir os fundos entre as linhas, usava os rolos (duros e moles) para aplicar as diferentes cores apenas numa matriz, de modo a que os rolos moles (borracha/gelatinas macias) beneficiavam para “atingir as gravações em profundidade” (Jorge & Gabriel, 1986: 96) e os rolos duros (madeira) ajudavam “a tintar as zonas de superfícies em relevo” (Jorge & Gabriel, 1986: 96). Como bom exemplo da inacreditável sensibilidade da artista para a cor é o seu intenso vermelho escarlate e as suas passagens entre cores nas xilogravuras: Explosão de Vida (Figura 1), Anti-Génese (Figura 2), de 1975, e Súplito, de 1974, entre outros. No exemplo da Explosão de Vida, a artista, trabalha na talha doce com a cor castanho-escura, e rolo mole amarelo-torrado; e depois o rolo duro vermelho, que para ficar mais intenso leva mais óleo de linhaça (fonte: fichas técnicas de artista). No caso das suas formas orgânicas mais amareladas com presença do seu verde-esmeralda, onde as fisionomias: “desprendem-se e reúnem-se numa aparente atracção física e celular” (Azevedo, 1988, s.p.), podemos observar nos exemplos Génese II, de 1972 (Figura 3), Génese III, de 1972, e Vida Orgânica, de 1971, entre outros, que a artista completou o seu trabalho com o mesmo modo de tintagem, só que desta vez as cores que usava foram: castanho-escuro (talha doce), cor salmão (rolo mole) e cor verde (rolo duro): Este aspecto, esta espécie de rosto do trabalho, reconhece-se, está reflectido, nas gravuras de Ilda Reis quase como se por ele se determinasse a morfologia que as distingue das outras (Azevedo, 1988: 3). Estes excelentes resultados de cor encontram-se também nas produções em técnicas de água-forte e água-tinta. O trabalho de Inquietação, de 1971 (Figura 4) (edição: GRAVURA) mostra que aplicação de cor foi feita na seguinte ordem: castanho-escuro (talha doce), vermelho (rolo duro) e amarelotorrado (rolo mole). A gravadora gostava de experimentar também com cor directamente na


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