44 Latka, Joanna (2011) “A poesia da matéria orgânica na gravura de Ilda Reis”
2008). A paixão de Ilda Reis para com a técnica foi sem dúvida um amor absoluto, pois dedicou a sua carreira somente à mesma, e como “uma excelente artista com uma capacidade de transmitir para a gravura, metal ou pedra todas as suas revoltas” (Matos, 2008), fixa-se de forma permanente no atelier da GRAVURA, onde depois leccionou vários cursos organizados pela Cooperativa. No seu currículo, entre 1966 e 1998, podemos contar com mais de cem exposições individuais e colectivas, tanto em território nacional como no estrangeiro. A artista foi repetidamente premiada em Portugal e no estrangeiro, e em 1971/72 e 1979/80 foi bolseira da Fundação Calouste Gulbenkian. As obras de Ilda Reis encontram-se nas mais relevantes colecções de arte portuguesa. A poesia da matéria orgânica e acesso a toda a grandeza de alma
Neste artigo vamos focar sobretudo na produção das várias interpretações da matéria orgânica, que se reflecte no seu trabalho, realçando ao máximo o seu talento, e que tem frutos extraordinários em produções na técnica da xilogravura, onde a artista consegue desenvolver o antigo sistema de escavação e produzir em madeira como se trabalhasse em técnicas de metal. Tendo em conta que a artista entra no mundo artístico já uma mulher adulta, não vemos uma passagem significativa entre a obra inicial (anos setenta) e a produção posterior, sendo que é possível observar nas suas apresentações gráficas “um estilo pessoal e uma linguagem forte, que se manifesta num vocabulário onde predominam (…) as formas orgânicas e o mundo vegetal” (Tavares, 1989: 6), que se caracterizam bastante pelo “uso que fazia da cor, do verde-esmeralda ao vermelho escarlate” (Matos, 2008). No entanto, todas as gravuras representam sempre “uma leitura que não é linear, mas por vezes simbólica” (Tavares, 1989: 6). Ilda Reis com o seu extraordinário sistema de corte de madeira (gravura de topo), com vários tipos de goivas, buris, formões, lâminas, canivetes, maço de madeira, entre outras ferramentas, aproveitando o veio de madeira, conseguindo controlar o desenho na matriz e produzir excelentes interpretações das suas vidas orgânicas e as formas vegetais, usando os traços dos seus instrumentos, “em que a gravura tem o acesso a toda a grandeza de alma” (Azevedo, 1988, s.p.). Assim, criava novas vidas cheias dos corpos linhares, verticais, horizontais, com as linhas curvas, longas, cortes, grosas, finas, entre outros. A gravadora pela aproximação ou afastamento dos traços gravava uma intensa variedade de texturas e conseguia dar sensação de movimentos nas suas fabulosas visões as matéria orgânica, cheias de células, tecidos, lesões microscópicas, onde: as matérias organizam-se em transmutações de uma forma para outra, estas recriam-se umas nas outras com a força poderosa do que tem fatalmente que emergir, e ser depois (Azevedo, 1972, s.p.).