Voltamos à escrita e àquela curiosa ideia de “as imaginações de um homem passarem com o tempo a ser recordações pessoais de muitos outros,” e também ou ainda à interrogação de Nuno Júdice… para, claro, permanecermos com Helena Almeida a coabitar as imagens e a imaginar as respostas: “(…) llegar más allá de los límites del cuerpo. (…) ¿Por qué acabo allí y empiezo aquí? ¿Por qué estoy atada a esta forma, por qué estoy aislada de esta manera? ¿Y por qué hay otros cuerpos aislados de la misma forma?” (Helena Almeida. Tela rosa para vestir, 2008: 116). Referências Almeida, Helena (1975) Desenho habitado. (Fig. 1) [Consult. 2010-12-21] Fotografia. Disponível em: http://www.artnet.com/ Galleries/Artwork_Detail.asp?G=&gid=1807 56&which=&ViewArtistBy=&aid=107524&w id=425685738&source=artist&rta=http:// www.artnet.com Almeida, Helena (1975) Pintura habitada. (Fig. 2) [Consult. 2010-12-29] Fotografia. Disponível em: http://www.preview-art. com/previews/09-2008/wack.html
Almeida, Helena (1976) Tela habitada. (Fig. 3) [Consult. 2010-12-29] Fotografia. Disponível em: http://cam.gulbenkian.pt/ index.php?article=60125&visual=2&langI d=1&ngs=1&queryParams=,autor|Helena Almeida&queryPage=0&position=2 Borges, Jorge Luis (1998) Obras completas (1952-1972). Lisboa: Editorial Teorema. Carlos, Isabel (2008) Emoções em estado fotográfico. In: Catálogo da exposição, Helena Almeida. Tela rosa para vestir. Madrid: Fundación Telefónica, pp. 11-27.
Revista :Estúdio. ISSN 1647-6158. Vol.2 (3): 37-42.
(In)Conclusão
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da diferença necessária a uma configuração recíproca. Esta reciprocidade advém do que Susan Sontag entende por conhecimento adquirido através da arte, ou seja, “uma experiência da forma ou estilo de conhecer qualquer coisa, mais do que um conhecimento do que quer que seja” (2004: 41). Neste caso, uma experiência afectiva de proximidade, partilha e descoberta de si no outro. Não há aqui ‘identidade entre causa e efeito,’ mas ‘emancipação,’ “o poder que cada um ou cada uma tem de traduzir à sua maneira o que percebe, de ligar o que percebe à aventura intelectual singular que os torna semelhantes a todos os outros na medida em que essa aventura singular não se assemelha a nenhuma outra” (Rancière, 2010: 27). Helena Almeida propõe-nos uma obra aberta à sua génese, àquele instante de habitar as coisas como o primeiro passo no sentido de coabitar. Fruir esta dinâmica pressupõe entrar no espaço obra, agir e ser agido por ele e, neste processo, construir a própria identidade pelo confronto com esse outro que a habita sentindo-se ‘palco’ dessa presença (nas palavras de Fernando Pessoa) e também actor nele. Esta proximidade confirma no observador a sensação de ser, dentro de um público indiferenciado, uma presença singular, actuando, através da sua própria incompletude, como o outro-cúmplice ‘desdobrado’ e transportado, tal como o artista, para o interior da obra para, à semelhança do que nos diz Pessoa, “criar em 2ª mão – imaginar em nós um poeta a escrever” (Lopes, 1990: 225).